• Sandra Carvalho

10 coisas que você precisa (e já pode) saber sobre o Snapchat

Muitos segredos do Snapchat foram revelados agora. Tudo por causa da abertura de capital.


Logo do Snapchat em Times Square, em Nova York | Foto: cc Marcho Verchi

O Snapchat abomina se expor para o mundo - bem ao contrário do que fazem seus 158 milhões de usuários diários.


Mas, com a abertura de capital, que deve acontecer logo, a Snap, dona do Snapchat, teve de fazer vários de seus segredos desaparecerem.


Com isso, se descobriu muita coisa que se ignorava sobre a empresa.


1. Pode esquecer a ideia de que a Snap, na sua essência, é a dona de um app, o Snapchat. Não, a Snap é uma empresa de câmeras.

Sua missão é nada menos que "reinventar a câmera". Vamos ver o que vem por aí, Thomas Edison.


Os planos estão no calhamaço para abertura de capital que a Snap mandou para SEC, o xerife do mercado de ações americano.


Uma mostra da ambição da Snap é o lançamento do Spectacles, os óculos super originais que gravam vídeos circulares, em setembro do ano passado. (Pronta-entrega no Mercado Livre por aproximadamente 1.000 reais).


Veja no vídeo de 30 segundos hospedado no YouTube. Promocional, mas divertido como quase tudo o que o Snapchat faz.



2. A Snap não tem uma sede central, mas vários escritórios espalhados pelos Estados Unidos e pelo mundo.


Os principais ficam em Venice Beach, Califórnia, bem perto da praia, em 28 mil metros quadrados dispersos por vários edifícios que mais parecem casas do que instalações de empresas.


A vizinhança do Oceano Pacífico não passa batida. Nos escritórios há chuveiros unissex para tirar a areia das escapadas para a praia.

Segundo o site Business Insider, Evan Spiegel, cofundador e CEO, circula entre essas casas num Range Rover preto, conduzido por um motorista.


3. A Snap é uma empresa de Delaware. Ops! Não é da Califórnia, onde seus cofundadores Evans Spiegel e Bobby Murphy viveram infâncias e adolescências tidas como douradas?


Não, Delaware foi o estado escolhido para incorporar a empresa porque é uma mãe para grandes companhias do ponto vista jurídico e fiscal.


Quando se trata de processos de negócios, nunca são júris populares que deliberam. Só juízes especializados.


Em imposto de renda, quem não mora no Estado não paga nada por lá. Deu para pegar o espírito da coisa, certo?


O estado é ímã para as empresas do ranking 500 da Fortune.


4. Mordomias são para quem pode: café, almoço e jantar são grátis para os funcionários nas cafeterias da Snap, mas quem preferir comer fora pode passar o crachá nos restaurantes locais e não pagará nada.


Quem pode mais leva mais: em 2016, foram mais de 900 mil dólares em gastos com a segurança pessoal de Spiegel.


A Snap tem 4,2 das 5 estrelas dos reviews do Glassdoor, site americano sobre carreiras. O Google fica com 4,4 e o Facebook, com 4,5.


5. Aparentemente, o que falta na Snap é informação para a maioria das pessoas que trabalham lá. Spiegel toma todas as decisões finais importantes, cercado de pouquíssimas pessoas, exatamente como seu ídolo Steve Jobs.


O fato de a empresa se espalhar por várias casas e escritórios mina a troca de informações e reforça o isolamento dos times.


Não há reuniões abertas para discutir estratégia ou road map para seus produtos principais, como é regra no Vale do Silício.


“Manter segredo te dá espaço para mudar de opinião, até que você esteja realmente seguro de que está certo”, disse Spiegel numa nota para os funcionários da Snap, de acordo com a Bloomberg.


Fora do pequeno círculo de Spiegel, os funcionários ficam sabendo das novidades da Snap pela imprensa, pelo que diz o super informado site Recode.


Foi exatamente isso que aconteceu com o lançamento do Spectacles, como relatado pela Bloomberg.


A Snap não só guarda na sua cúpula as informações internas importantes, mas também pede aos funcionários que não passem nada adiante sobre a empresa.


Eles são aconselhados a não divulgar cargos e funções nas redes sociais nem comentar sobre a Snap em espaços públicos, a começar pelos bares.


6. A Snap paga bem seus super executivos, é claro. Quem colocou mais dinheiro no bolso no ano passado, considerados salários e bônus divulgados, foi Imran Khan, 39 anos.


Vice-presidente de estratégia, ele nasceu em Bangladesh, estudou business em Denver e virou uma estrela de Wall Street. Conduziu a abertura de capital do Alibaba, Go Daddy e GroupOn.


Khan recebeu 5,4 milhões de dólares, mais que o CEO da Snap. E Khan já tinha embolsado 145 milhões de dólares em ações em 2015 - essa foi a luva bancada pela Snap para convencer Khan a trocar o Credit Suisse por Venice Beach.


Considerada a remuneração total divulgada, o homem mais bem pago da Snap em 2016 foi o Timothy Sehn, 36 anos, vice-presidente de engenharia. Ele levou 41,4 milhões de dólares, mas 40 milhões foram em ações.


Detalhe: pode haver outros executivos ainda mais bem remunerados, mas a Snap só divulgou a remuneração de Spiegel, Khan e Sehn. A empresa só é legalmente obrigada a revelar a remuneração de três executivos.


Ficou de fora um dos cofundadores, Bobby Murphy, 28 anos, mas se sabe que seu salário base é de 250 mil dólares, metade do de Spiegel. Ele é o vice-presidente de tecnologia da empresa.


As lendas urbanas do Vale do Silício dizem que até hoje o app Snapchat tem pedaços de código que ele mesmo escreveu. Spiegel sempre se concentrou mais em design e visão geral da Snap.


7. A maneira mais garantida de fazer carreira na Snap é sugerir coisas realmente novas, como mensagens que desaparecem, vídeos verticais, óculos que filmam, máscaras digitais malucas.


O atalho mais curto para queimar o filme é sugerir melhorias incrementais sobre produtos de concorrentes, algo que Spiegel não suporta.


O mantra da empresa, mostra o documento da SEC, é “coragem de criar”.


8. Como em qualquer empresa de tecnologia, não há futuro garantido para ninguém na Snap. Que o diga Reggie Brown, um dos três fundadores do Snapchat, deletado por default em 2011.


Ele era um um dos melhores amigos de Spiegel na universidade de Stanford, e autor da ideia criar mensagens que se autodestroem, de acordo com vários relatos.


O site TechCrunch investigou a história nos mínimos detalhes.


Afastado à revelia - ele acusa Spiegel e Murphy de trocarem as senhas de acesso aos computadores do Snapchat em agosto de 2011 - Brown processou a empresa.


Exatamente como fizeram os gêmeos Winklevoss no caso do Facebook.


E bingo! Brown levou 157 milhões de dólares de indenização.


Mais: um comunicado oficial da Snap reconheceu que foi dele a ideia original de criar uma aplicação para enviar mensagens com fotos que desapareciam quando era estudante em Stanford.


A cifra de indenização de 157 milhões de dólares só se tornou conhecida agora, graças à documentação da SEC para abertura de capital. Na época, as bases do acordo ficaram em segredo.


Reggie Brown não é mencionado explicitamente pela Snap. Na documentação da SEC, apenas se faz referência a um indivíduo que recebeu essa quantia de dinheiro.


9. A Snap coleciona nomes, indica o documento da SEC. Em sete anos, já mudou de nome três vezes.


Nasceu em 2010, na Califórnia, como Future Freshman e trocou para Toyopa Group no ano seguinte (Toyopa é o nome da rua da casa do pai de Spiegel).


Em 2012, foi incorporada como Snapchat em Delaware. Adotou Snap no ano passado, já no clima de abertura de capital.


10. Prejuízos, como mordomias, também são para quem pode. A Snap tem hoje um déficit acumulado de 1,2 bilhão de doláres.


Perto do valor de mercado que Snap pode ter, de cerca de 25 bilhões de dólares, nem parece tanto.


E a Snap não dá sinal de ter a menor vontade de se justificar para seus potenciais investidores, nem parece minimamente disposta a dividir seu poder com eles, para assegurar que não fará loucuras no futuro.


Prova disso é abertura de capital da empresa, inédita do ponto de vista da concentração de poder na mão dos fundadores - as ações oferecidas não dão poder de voto a ninguém.

Spiegel e Murphy continuarão decidindo tudo sozinhos.


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