• Sandra Carvalho

21 toques de Lara Resende para acordar o Brasil

O economista investe contra a obsessão com cortes de custos e equilíbrio fiscal.


Lara Resende: fustigando o dogmatismo econômico e os economistas do mercado financeiro | Foto: Unicamp

O economista carioca André Lara Resende acaba de dar novos golpes no culto do corte de custos e na obsessão com equilíbrio fiscal tão popular entre os economistas do governo Bolsonaro e do mercado financeiro.


Numa longa entrevista ao economista André Sacconato no Canal Um Brasil, da Fecomercio SP, no YouTube, ele declarou a teoria quantitativa da moeda, de Milton Friedman, da Universidade de Chicago, desmoralizada, fez uma caricatura do neoliberalismo e disse que a grande chaga do Brasil é sua grande massa de excluídos.


Banqueiro, PhD em Economia pelo MIT, Lara Resende foi um dos pais do Plano Real, diretor do Banco Central e presidente do BNDES. Nos últimos anos, tem estado próximo de Marina Silva, da Rede.


Veja o que ele disse, numa versão resumida de suas frases. Ele não menciona pelo nome o ministro da Economia, Paulo Guedes, uma única vez, mas boa parte de seus petardos se dirige à equipe econômica do governo Bolsonaro. Outra parte, ainda mais ferina, se destina aos economistas do mercado financeiro.


A íntegra da entrevista do Canal Um Brasil está embedada no fim da página.


1.

"Como é que nós vamos fazer o país daqui a 10 anos? Essa discussão não existe. A única discussão que se faz é equilibrar o orçamento ou não: "onde vamos cortar"? Como se fosse uma coisa mágica: desde que a gente equilibre o orçamento fiscal, os investimentos aparecerão e o país vai crescer. Isso não é verdade, isso é um pensamento mágico.


2.

"A ideia agora é que temos de equilibrar o orçamento: o governo só pode gastar exatamente aquilo que ele arrecada. Se não for isso, catástrofe. Se ele se endividar, passando de certo limite, catástrofe. Isso não é verdade. É simplesmente um tabu. Os Estados Unidos saíram da 2ª Guerra Mundial com 160% do PIB de endividamento. E estão aí: são o país mais bem-sucedido da segunda metade do século 20.


3.

"O governo não precisa de arrecadação tributária para gastar. Ele gasta, emite a moeda, depois retira o que gastou cobrando imposto ou vendendo títulos. A lógica é essa, primeiro ele gasta, ao gastar ele emite, e depois, se achar que é necessário, tributa para retirar essa liquidez ou vende títulos para retirar a moeda que ele injetou.


4.

"O governo não pode tudo. Se você gasta mal, você não tem para gastar bem. Por quê? Existe uma capacidade instalada, uma capacidade de renda, de produção, de oferta da economia que não pode ser superada. Como você está numa crise, com desemprego e muito excesso de capacidade, essa restrição está muito abrandada. Pelo contrário - é a lição keynesiana - o gasto do governo, mesmo que pouco produtivo ( o certo é gastar sempre bem, de forma produtiva) nessas circunstâncias é desejável, porque recupera a economia, recupera a arrecadação e até favorece o equilíbrio das contas públicas.


5.

"Nas circunstâncias certas, o investimento público não tem nenhuma desvantagem. O aumento do investimento público influenciado por emissão monetária também não tem desvantagem. Claramente em certas circunstâncias, não em todas as circunstâncias.


6.

"É claro que gastos públicos têm que estar dentro de um orçamento. A importância do orçamento fiscal é muito grande. O Estado deve custar o mínimo possível em sua própria operação. Ele deve ser eficiente. Gastos correntes devem ser o mínimo possível, e devem ser cobertos inteiramente por receitas tributárias. Em certas circunstâncias, se o Estado investir bem, isso é altamente positivo. Isso deveria estar fora do orçamento.


7.

"É mais importante ter uma boa capacidade de avaliar e ranquear investimentos públicos por seu efeito na grande produtividade da economia e no grande bem-estar da sociedade do que a discussão hoje sobre política monetária, se baixa ou sobe a taxa de juro, uma coisa praticamente irrelevante. Onde se precisa parar, pensar e ter propostas é exatamente no investimento público, no orçamento.


8.

"No Brasil a discussão passou de 20, 30 anos atrás, em que ninguém falava em orçamento público, ninguém tinha preocupação com isso, era uma total irresponsabilidade do ponto de vista fiscal, para uma obsessão no extremo oposto. Uma obsessão onde tudo é orçamento, um dogmatismo fiscalista completamente irracional, onde não se discute o que se tem que fazer, se discute de onde vêm os recursos. São dois equívocos.


9.

"Quando você só pensa financeiramente no orçamento você fala: "Estamos preocupados com educação, então vamos alocar recursos para educação, o problema está resolvido". O problema não está resolvido, não. É preciso saber como gastar.


10.

"A decisão de como financiar deve ser secundária, subordinada ao projeto de gastar. Eu tenho um bom investimento. Quanto ele custa? Tanto. Temos como financiá-lo? A lógica está invertida no Brasil hoje. É: "Temos um problema. Não sabemos nem como resolvê-lo. Vamos jogar dinheiro". Ou: "Estamos gastando muito. Vamos cortar." Agora cortar o quê? Não importa. Como sempre, se corta muito mal, porque se corta linearmente. E se corta onde tem menos pressão política. Portanto você está sempre fazendo a política errada.


11.

"Fazendo uma caricatura, essa proposta neoliberal, o laissezferismo, é a ideia de que basta equilibrar as contas públicas e reduzir e limitar o endividamento do governo que a confiança virá e virá com investimento externos. Mas você não precisa de poupança para investir. Você investe e o investimento cria depois o aumento da renda e da poupança. O que faz as pessoas investirem é a perspectiva de lucro. Se há confiança de que haverá lucro o empresário investe.


12.

"Esquece essa obsessão com equilíbrio fiscal. Não que isso não seja importante - mas neste momento não é. O Estado brasileiro foi ineficiente e gastou mal? Sim, não tem dúvida nenhuma. Vamos corrigir? Sim.


13.

"A Previdência precisava ter uma reforma? Claro que precisava. Era distorcida, corporativista e o envelhecimento da população e o aumento da expectativa tornaram a Previdência deficitária. A correção foi feita. Em cima de quem? Não em cima dos setores privilegiados, mas em cima do INSS, claramente onde há menos força política. Que efeito teve isso? Nenhum sobre as expectativas.


14.

"O Brasil precisa de uma reforma tributária? Não tem a menor dúvida. O sistema tributário brasileiro é confuso, complexo, embaralhado, é um inferno. Agora isso é condição suficiente para recuperação do investimento na economia no Brasil? Não, não é. Isso é condição necessária? Provavelmente é. Nas circunstâncias atuais é muito mais importante simplificar do que equilibrar o orçamento.


15.

"Os mercados financeiros tomam um país e fazem uma chantagem para que o país seja conduzido na direção que eles querem. No caso do Brasil, que não tem dívida externa e tem dívida interna, essa chantagem não existe. O Brasil tem 25% do PIB em reservas internacionais, enorme superávit comercial e praticamente equilíbrio na conta-corrente. Faz sentido comprar dólar agora porque a dívida vai passar de 75% para 95% do PIB? Claro que não. Mas tem 50 economistas que aparecem todos os dias na mídia falando a mesma besteira. A única coisa que eles sabem falar é isso.


16.

"Ninguém sabe nada de economia no Brasil hoje. Para ser economista hoje no mercado financeiro só precisa dizer o seguinte: a dívida subiu, caiu, equilibrou, não equilibrou, vai equilibrar. Ninguém sabe mais nada. Não falam de política monetária ou política de investimento. É completamente irreal. Parece uma comédia, é quase uma religião. O que tem por trás disso? Nada. Isso é uma ideologia, a ideologia que está por trás do mercado financeiro. Não tem nenhuma racionalidade. O sistema financeiro hoje sequestra a condução da política monetária e da política fiscal nos países democráticos.


17.

"Sou francamente a favor de uma redução tributária no Brasil. Acho que o que asfixia o Brasil é essa carga tributária altíssima. E o déficit? Não é o desejável, mas nesse momento não é grave. Reduz a carga tributária, faz o investimento certo, põe a economia pra funcionar com um projeto que faça sentido a longo prazo que a confiança se recupera.


18.

"Toda pessoa acha que seu país é extraordinário, com recursos extraordinários, a natureza mais linda, essa ingenuidade simpática. O Brasil, de fato, é um país extraordinário. Mas tenho dificuldade em ver que o Brasil é extraordinário nesse momento.


19.

"O Brasil já é um país desenvolvido que carrega uma massa extraordinária de excluídos. Essa é a grande chaga do Brasil. Como não conseguimos resolver esse problema dramático de não incorporar uma grande parcela da nossa população ao país de classe média e ao país desenvolvido que já somos há alguns anos?


20.

"O Brasil já tem uma indústria diversificada, sofisticada, tem tecnologia, tem capacidade empresarial, tem um mercado financeiro na minha opinião até desenvolvido demais. Já tem todos esses atributos. É um país com um setor de agronegócio extraordinário, com o potencial de ser um país de energia limpa, exemplo para o mundo, uma Amazônia que tem um extraordinário potencial de investimento em uma economia ecologicamente sustentável. Então o Brasil é um país extraordinário, com todo o potencial do mundo para crescer.


21.

"O que me aflige é um bloqueio mental, dogmático, dos macroeconomistas que assumiram uma percepção que paralisa o Brasil. Eles acham que existe uma possibilidade de crescer asfixiando o Estado. Não existe. Uma economia capitalista eficiente e produtiva depende de ter um estado moderno, digital, competitivo, desburocratizado e altamente competente em sua atuação.


Veja o vídeo completo da entrevista, com uma longa explanação da teoria monetária moderna (MMT, na sigla em inglês):



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