• The Conversation

A Amazônia degradada: o que não se vê dos satélites

Texto de Tommaso Jucker, pesquisador de Ciências Biológicas da Universidade de Bristol.


A Floresta Amazônica em sua grandeza | Foto: cc CIFOR/Flickr

O desmatamento na Amazônia brasileira aumentou abruptamente nos últimos dois anos, após ter apresentado uma trajetória de queda por mais de uma década.


Com o presidente Jair Bolsonaro, um entusiasta notório do avanço sobre a floresta tropical, novos dados de desmatamento se tornam regularmente manchetes globais.


Mas o que menos pessoas percebem é que mesmo as florestas que não foram desmatadas, ou totalmente “desmatadas", raramente ficam intocadas.


Na verdade, apenas 20% das florestas tropicais do mundo são classificadas como intactas. O restante foi afetado por extração de madeira, mineração, queimadas, expansão de estradas ou outras atividades humanas.


Tudo isso pode acontecer sem ser detectado pelos satélites que monitoram o desmatamento.


Essas florestas são conhecidas como “degradadas” e constituem uma fração cada vez maior das paisagens florestais remanescentes do mundo.


A degradação é um grande desafio ambiental e social. Perturbações associadas à exploração madeireira, queimadas e fragmentação de habitat são uma fonte significativa de emissões de CO2.


Essas perturbações podem transformar as florestas de sequestradoras de carbono em fontes de carbono. Isso se dá quando o carbono emitido quando as árvores queimam ou se decompõem supera o carbono retirado da atmosfera à medida que as árvores crescem.


A degradação da floresta também é uma grande ameaça à biodiversidade e tem demonstrado aumentar o risco de transmissão de doenças infecciosas emergentes.

Apesar de tudo isso, continuamos sem ferramentas adequadas para monitorar a degradação florestal na escala necessária.


A principal razão pela qual a degradação florestal é difícil de monitorar é que é difícil ver do espaço.


O lançamento do programa Landsat da NASA na década de 1970 revelou - talvez pela primeira vez - a verdadeira extensão do impacto que os humanos tiveram nas florestas do mundo.


Hoje, os satélites nos permitem rastrear as frentes de desmatamento em tempo real em qualquer lugar do mundo.


Mas embora seja fácil detectar onde as florestas estão sendo derrubadas e convertidas em fazendas, capturar a degradação florestal não é tão simples.


Uma floresta degradada ainda é uma floresta, pois por definição ela retém pelo menos parte de sua canópia. Embora as florestas antigas e as florestas degradadas possam parecer muito diferentes no solo, vistas de cima podem ser difíceis de distinguir em um mar de verde.


Detetives de degradação


Um novo estudo publicado na revista Science por uma equipe de pesquisadores brasileiros e americanos liderada por Eraldo Matricardi,da UnB, deu um passo importante para enfrentar esse desafio.


Ao combinar mais de 20 anos de dados de satélite com extensas observações de campo, os pesquisadores treinaram um algoritmo de computador para mapear as mudanças na degradação florestal ao longo do tempo em toda a Amazônia brasileira.


O trabalho deles revela que 337.427 km² de floresta foram degradados em toda a Amazônia brasileira entre 1992 e 2014, uma área maior do que o vizinho Equador.


Durante o mesmo período, a degradação superou o desmatamento, que contribuiu para a perda de mais 308.311 km² de floresta.


Os pesquisadores deram um passo além e usaram os dados para separar a contribuição relativa de diferentes fatores de degradação da floresta, incluindo extração de madeira, queimadas e fragmentação florestal.


O que esses mapas revelam é que, embora as taxas gerais de degradação em toda a Amazônia brasileira tenham diminuído desde a década de 1990 - em linha com a diminuição do desmatamento e da fragmentação de habitat associadas - as taxas de extração seletiva de madeira e queimadas quase dobraram.


Em particular, nos últimos 15 anos, a exploração madeireira se expandiu para o oeste em uma nova fronteira que até recentemente era considerada remota demais para a floresta estar em risco.


Ao colocar a degradação florestal no mapa, Matricardi e colegas não apenas revelaram a verdadeira extensão do problema, mas também geraram os dados básicos necessários para orientar uma ação a respeito.


A restauração de florestas degradadas é fundamental para vários esforços internacionais ambiciosos de conter a mudança climática e a perda de biodiversidade, como o esquema da ONU para pagar aos países em desenvolvimento para manter suas florestas intactas.


Se recuperadas, as florestas degradadas, particularmente aquelas nos trópicos, têm o potencial de sequestrar e armazenar grandes quantidades de CO2 da atmosfera - ainda mais do que suas contrapartes intactas.


Simplesmente permitir que as florestas se regenerem naturalmente pode ser uma estratégia muito eficaz, já que os estoques de biomassa geralmente se recuperam em décadas. Em outros casos, a restauração ativa pode ser uma opção preferível para acelerar a recuperação.


Outro estudo recente, também publicado na revista Science, mostrou como o plantio de árvores e o corte de lianas (grandes trepadeiras lenhosas comuns nos trópicos) podem aumentar as taxas de recuperação de biomassa em até 50% nas florestas tropicais do sudeste asiático.


Mas a restauração ativa tem um custo que, em muitos casos, excede os preços que são pagos para compensar a emissão de CO2 no mercado voluntário de carbono.


Se quisermos implementar com sucesso a restauração do ecossistema em uma escala global, governos, empresas e até mesmo indivíduos precisam pensar cuidadosamente sobre qual valor eles dão à natureza.


☛ Esse artigo foi republicado do site The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o original em inglês.


Veja mais: Florestas tropicais não suportam mais que 32º C


#BiomasBrasileiros