• Sandra Carvalho

A ameaça incontida dos porcos selvagens: sem final feliz

Eles se espalharam a partir das pradarias do Canadá, comendo o que encontram pela frente.


Pesquisadores canadenses colocam GPS num porco selvagem | Foto: cc Universidade de Saskatchewan

Os porcos selvagens do Canadá são um dos exemplos mais eloquentes do que uma espécie invasiva pode fazer numa região atacada. Sua ação é cada vez mais devastadora nas zonas rurais e nas florestas.


O problema dos porcos selvagens começou nos anos 80, com o que se mostrou uma péssima ideia: importar javalis selvagens euroasiáticos para diversificar o mercado de carne do Canadá.


Em pouco tempo, os preços da carne dos javalis selvagens despencaram, e muitos animais foram soltos por criadores que desistiram do negócio. Livres, eles proliferaram nas pradarias canadenses, frequentemente cruzando com porcos domésticos soltos.


As províncias de Alberta, Manitoba e Saskatchewan foram o ponto de partida da invasão e ainda hoje têm a maior concentração de porcos selvagens . Mas atualmente eles se espalham por boa parte do Canadá, atingindo as províncias de Colúmbia Britânica, Ontário e Quebec.


Nos Estados Unidos, os porcos selvagens já foram vistos em quase 40 estados. Atirar nos porcos se tornou um esporte no Texas, onde eles causam aproximadamente 400 milhões de dólares de prejuízo por ano aos fazendeiros.


O termo porcos selvagens abrange os javalis selvagens, os porcos domésticos que vivem livres na natureza e os híbridos dos dois: todos os porcos fora das cercas.


Os danos que eles causam vão da destruição de plantações de alimentos (eles têm uma queda especial por canola, cevada, trigo e milho) a agressões à flora e fauna nativa nas matas.


Os porcos removem raízes, tubérculos e sementes grandes da terra, degradando habitats e facilitando a erosão do solo. Como andam longas distâncias, favorecem a disseminação de plantas invasivas através dos excrementos.


Porco selvagem no Canadá | Foto: Wildlife Ecology/Universidade de Saskatchewan

Pesando entre 55 e 113 quilos, em média, os porcos selvagens competem com outros animais grandes por alimentos. Pulverizam ecossistemas muito sensíveis.


Onívoros, comem basicamente plantas e nozes, mas não dispensam ovos de pássaros e tartarugas, sapos e rãs - traçam até filhotinhos de veados.


Um estudo da Universidade Estadual do Mississipi calcula que há 26% menos diversidade entre pássaros e mamíferos nas florestas com porcos selvagens.


Detalhe: eles reproduzem com a maior facilidade. Entre cinco e seis meses de idade já estão ativos. Uma fêmea pode ter até 100 filhotes em dois anos.


As invasão dos porcos selvagens já estava no horizonte mesmo antes de as criações de javalis selvagens soltarem os animais. É que esses porcos têm a predisposição para cavar buracos, escapando de áreas cercadas com facilidade.


O que começou com uma má ideia se combinou no Canadá com outra má ideia: a criação de javalis selvagens para entretenimento em ranchos. Os animais foram usados como alvo de atiradores em áreas cercadas, numa modalidade pervertida de caça esportiva.


Havia uma esperança que os javalis selvagens não sobrevivessem ao duro clima canadense e definhassem com o frio. Mas rapidamente muitos deles criaram pelos bem mais longos como defesa das baixas temperaturas.


A situação parece ainda mais séria porque os porcos selvagens são reservatórios de pelo menos 32 doenças, segundo o New York Times. Entre elas, tuberculose, brucelose e leptospirose.


Embora os porcos selvagens sejam malvistos por toda parte como invasores, ainda não existe um consenso sobre como agir em relação a eles.


A primeira dificuldade é que eles não são fáceis de achar, e reforçam os seus hábitos seus noturnos quando se sentem perseguidos. A segunda é que expandem seu alcance muito rapidamente. Pesquisas da Universidade de Saskatchewan (USask) indicam que eles aumentaram seu território em 88 mil quilômetros quadrados por ano nos últimos dez anos.


A terceira dificuldade é que não há uma saída fácil e ética para resolver os problemas dos porcos selvagens. As duas opções mais citadas são altamente polêmicas: matar os animais a tiros ou envenená-los, contaminando também outros animais e o meio ambiente.


Grupo de porcos selvagens no Canadá | Foto: Dan Sakal/Universidade de Saskatchewan

Matar aleatoriamente, aliás, nem funciona. Segundo o professor Ryan Brook, da USask, o mais conhecido pesquisador canadense de porcos selvagens, no Texas se matam centenas de milhares de porcos selvagens por ano e a população de animais não diminui: continua em aproximadamente três ou quatro milhões.


Brook sugere que a maneira mais eficaz de erradicar os porcos é colocar em um deles um dispositivo GPS, seguir o animal e encontrar seu grupo. Aí, então, colocar caçadores em ação e eliminar o grupo inteiro.


Diante das opções, dá para entender porque várias províncias do Canadá e estados dos EUA preferem não fazer nada e assistir à proliferação dos porcos selvagens. Seja como for, essa é uma história sem final feliz.


#Canadá #EUA #Porcos #UniversidadeEstadualdoMississipi #USask