• Sandra Carvalho

A árvore que abastece o mundo de incenso está a perigo

A Boswellia corre risco na Etiópia, principal fonte de incenso do globo.


Etiópia: o ambiente da Boswellia papyrifera | Crédito da foto: Manuel Boissière/FAO

O incenso, uma fragrância milenar, pode se tornar vítima de seu próprio sucesso no século 21.

A Etiópia é a principal fonte de incenso do planeta. A maior parte é feita com a resina aromática da árvore Boswellia papyrifera, das suas florestas secas. As exportações vão bem, mas a árvore vai mal.

Um time internacional de cientistas da Universidade Wageningen, da Holanda, alerta que a Boswellia papyrifera pode entrar em colapso nas próximas décadas. Eles estimam que a produção da resina cairá pela metade em 20 anos.

Os cientistas avaliaram 22 mil árvores e observaram que mais de 75%das populações estudadas não tinham árvores em crescimento suficientes para substituir as que morriam e nem havia um processo de regeneração natural após a extração da resina.

O que ocorre? Com a demanda global por incenso, em muitas áreas as árvores têm sido exploradas demais, com cortes excessivos nos troncos para extrair sua resina. A recuperação dos cortes consome a energia das árvores, que ficam mais fracas.

Mais: os cortes facilitam o ataque dos insetos, o que aumenta ainda mais o desgaste da planta, como demonstrou um estudo anterior sobre as Boswellias. As sementes ficam mais fracas, dando origem a árvores mais vulneráveis.

O problema não vem de hoje. Em 2006, uma outra investigação da própria Universidade Wageningen mostrou que a extração da resina do incenso enfraquecia bastante as árvores, comparando-as com as árvores não exploradas.

Segundo esse estudo, as árvores envolvidas na produção do incenso geravam menos flores, frutos e sementes que as outras. Seus frutos eram menores, e as sementes tinham peso menor e menos vitalidade.

Mas não é só a extração excessiva de resina que prejudica as Boswellias. As pequenas criações de gado e de cabras também, pois as árvores viram alimento dos rebanhos, que circulam pelas florestas livremente.

O risco que paira sobre as árvores ameaça também a população local, que depende delas para garantir sua sobrevivência.

Se nada mudar, o incenso feito de Boswellia papyrifera, uma das fragrâncias mais antigas do mundo, pode acabar. O primeiro registro de incenso encontrado é de uma tumba do Egito do século 15 a.C.

Na Bíblia, o incenso é mencionado 22 vezes, e tudo indica que todas as referências do Antigo Testamento são de incenso produzido pela Boswellia payrifera.

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