• Sandra Carvalho

A China já deu o 1º passo em vacina contra coronavírus. Vale otimismo?

O primeiro teste clínico com humanos é animador, mas não dispensa cautela.


Células (verdes) infectadas com o novo coronavírus (em lilás) | Imagem: NIAID/Flickr

Estamos mais perto de uma vacina contra o novo coronavírus? Talvez mais perto, mas ainda a muitos meses de distância.


Os cientistas chineses da biofarmacêutica CanSino Biologics, de Tianjin, foram os primeiros a concluir um teste clínico com humanos de uma vacina contra o novo coronavírus e a divulgar seus resultados numa publicação científica, a Lancet.


Há vários sinais encorajadores desse primeiro teste clínico da vacina, chamada de Ad5-nCoV. Segundo o estudo da Lancet, ela parece segura e bem tolerada, sendo capaz de produzir anticorpos contra a Covid-19. Mais: aumenta as células T, do sistema de defesa do organismo.


No entanto, em cerca de metade das pessoas testadas, a imunidade produzida foi mais baixa do que talvez fosse ideal. Por que isso aconteceu?


A vacina da CanSino, desenvolvida junto com o Instituto de Biotecnologia de Pequim, é bem tradicional. Ela usa como vetor um vírus atenuado do resfriado comum, o adenovírus 5 (Ad5) , que infecta células humanas facilmente mas é incapaz de causar a doença.


Dessa forma, a vacina leva material genético da proteína S (de spike) do novo coronavírus para as células, estimulando a criação de anticorpos que reconhecerão a proteína S e combaterão o vírus.


O problema é que muita gente já teve infecções com o adenovírus 5, tendo uma imunidade preexistente a ele, o pode complicar a eficácia da vacina.


Vacina em teste | Foto: CanSino Biologics

O teste da CanSino foi feito com 108 pessoas adultas saudáveis de Wuhan, na província de Hubei, o primeiro epicentro da pandemia.


Os participantes estavam entre os 18 e os 60 anos de idade e não tinham tido Covid-19. Três doses diferentes da vacina foram experimentadas.


Não houve nenhum efeito adverso grave da Ad5-nCoV em qualquer pessoa testada nos primeiros 28 dias da aplicação da vacina, de acordo com o estudo do Lancet. Mas cerca de 80% teve alguma reação, a maioria leve ou moderada, na primeira semana.


"O teste demonstra que uma única dose da vacina produz anticorpos específicios em 14 dias", observou Chen Wei, do Instituto de Biotecnologia de Pequim. "Mas os resultados precisam ser interpretados com cautela, porque os desafios de uma vacina contra Covid-19 não têm precedentes."


Aproximadamente metade das 108 pessoas do teste clínico tinha níveis altos de imunidade preexistente ao Ad5. Todos os participantes responderam à vacina com um aumento de anticorpos do novo coronavírus, mas quem tinha essa imunidade prévia exibiu respostas menos robustas.


Quanto mais idosa a pessoa, mais anticorpos do Ad5, e menor a produção de anticorpos do novo coronavírus. Dá para concluir que a vacina não funcionará com pessoas idosas? Ainda não, porque por enquanto não se sabe o nível necessário de anticorpos do novo coronavírus para barrar a infecção.


Resultados mais conclusivos virão do segundo teste clínico da Ad5-nCoV, que já começou em abril em Wuhan, com 500 adultos. Os cientistas tentarão replicar os resultados da fase 1 e observar eventuais reações adversas ao longo de seis meses.


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