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A exuberância dos pássaros diminui até na Amazônia intacta

Aves que se alimentam no chão se tornam mais raras mesmo na floresta preservada.


O papa-formiga-de-topete se torna mais comum, e outras espécies escasseiam | Foto: Philip Stouffer/Pesquisa Fapesp

O vira-folha-pardo (Sclerurus caudacutus) é um pássaro arredio que vive no chão da floresta Amazônica, revirando folhas com o bico em busca de insetos e pequenos animais. Nos últimos 35 anos, em uma extensa região de floresta amazônica, a ave quase desapareceu e, assim como ela, outras 20 espécies com hábitos semelhantes se tornaram mais raras.


A mudança, no entanto, não ocorreu em uma região devastada pelo fogo ou desmatamento, como seria de esperar, mas em uma floresta preservada, segundo estudo publicado na revista Ecology Letters no dia 26 de outubro.


Por outro lado, na mesma área, aumentou a quantidade de aves generalistas, que comem frutos e vivem em alturas intermediárias das árvores. Não se sabe a razão da mudança percebida pelo estudo, mas há indícios de que esteja relacionada com as mudanças climáticas em curso na Amazônia.


“Em florestas degradadas, aves de alimentação especializada perdem sua única fonte de alimento, enquanto as generalistas encontram outras formas de sobreviver”, esclarece o ornitólogo norte-americano Philip Stouffer, da Universidade do Estado da Louisiana (LSU), nos Estados Unidos, em entrevista a Pesquisa Fapesp por chamada de vídeo. “Mas não esperávamos observar o mesmo padrão em uma região de floresta protegida, que está longe de qualquer interferência humana.”


A equipe começou a coletar os dados em 2008, dentro do Projeto Dinâmica Biológica de Fragmentos Florestais (PDBFF), uma cooperação internacional entre o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e o Smithsonian Institution, nos Estados Unidos.


Em uma área de floresta a cerca de 80 quilômetros (km) ao norte de Manaus, logo ficou claro que estava mais difícil visualizar as aves que caçam insetos pelo chão. Na mesma região, outra coleta de aves já havia sido feita no início da década de 1980. Com isso, foi possível comparar dados e entender o que estava acontecendo com essas populações ao longo desse período de 35 anos.



Uirapuru-verdadeiro: está cada vez mais difícil encontrar | Foto: cc Lindolfo Souto/Wikimedia Commons

De um total de 79 espécies, 47 se tornaram mais raras e 32 ficaram mais comuns. Quatorze das espécies de aves de solo que comem insetos foram avistadas, ao todo, 554 vezes na primeira coleta e apenas 118 na segunda – os pesquisadores calculam uma redução de mais de 50% na abundância de oito delas.


Mesmo sem ameaça de extinção, houve uma erosão da biodiversidade. O vira-folha-pardo, o segundo mais afetado, quase desapareceu: foi encontrado em mais da metade dos pontos em que foi buscado na primeira expedição e em menos de 10% deles na segunda.


Degradação da floresta

“Os pássaros parecem indicar que a floresta está se degradando ao longo do tempo, mesmo sem nenhum sinal óbvio de alteração da mata”, avalia o ornitólogo Cameron Rutt, também da Universidade do Estado da Louisiana e outro autor do artigo, que também concedeu entrevista a Pesquisa Fapesp por chamada de vídeo.


O sumiço das aves contraria um pressuposto comum adotado na ecologia, de que as florestas intactas preservam a biodiversidade que abrigam. É comum, por exemplo, no estudo de áreas degradadas, avaliar quanta riqueza biológica foi perdida comparando-a com áreas protegidas do mesmo ambiente. Mas se as áreas protegidas já sofreram perdas de biodiversidade, as estimativas estariam subestimadas.


Ainda não se sabe se a queda no número de pássaros também ocorreu em outras regiões, com outras espécies de aves ou de outros animais. “Mas, como a área é extensa e os dados robustos, a hipótese de um evento localizado, como a queda de árvores devido a fortes ventos localizados, está descartada”, assegura Stouffer.


A equipe capturou 7.600 aves, que foram liberadas logo depois, e os pontos de coleta formaram uma extensa linha reta de cerca de 40 km, atravessando a área do PDBFF.


Dados genéticos sugerem que a população do vira-folha-pardo e de outras aves típicas de florestas de terra firme variou de tamanho no passado recente, acompanhando as mudanças históricas no clima.


“Assim, a população dessa espécie provavelmente vinha aumentando desde o ápice da última glaciação, há 18 mil anos, enquanto a floresta se tornava mais úmida”, explica a ornitóloga brasileira Camila Ribas, do Inpa, que pesquisa a evolução das aves da região e não participou do estudo. “A queda atual dá um passo no sentido oposto e pode ser resultado do impacto combinado das mudanças climáticas recentes, causadas pelo homem e muito mais abruptas, e do desmatamento.”


Vira-folha-de-bico-curto: costuma revirar serrapilheiras atrás de alimentos | Foto: Philip Stouffer/Pesquisa Fapesp

"Até onde eu saiba, esse é o primeiro estudo que compara a biodiversidade de animais em regiões extensas e protegidas ao longo do tempo – é um trabalho que depende de financiamento contínuo e vastas áreas preservadas por um longo período de tempo”, avalia o ornitólogo Alexandre Aleixo, da Universidade de Helsinque, na Finlândia.


O estudo só foi possível graças ao PDBFF, criado para estudar o efeito de longo prazo das interferências no ecossistema.


Mortalidade das árvores

A principal evidência de que as mudanças climáticas estejam, de alguma forma, relacionadas com o declínio dos pássaros insetívoros é o aumento de mortalidade nas árvores na bacia amazônica ao longo dos últimos 50 anos, como indica estudo do Inpa publicado na revista Nature Climate Change em 2019.


Pesquisadores verificaram que a mortalidade aumenta após eventos climáticos extremos ‒ mais frio e úmido ou mais quente e seco do que o normal ‒, típicos das mudanças climáticas na região.


Espécies mais resistentes ao clima seco, como as lianas, são favorecidas, mudando a fisionomia da floresta, assim como as espécies de crescimento rápido, que ocupam os espaços abertos na mata quando árvores morrem.


No entanto, ainda não está claro de que forma a mortalidade das árvores teria afetado o hábitat das aves que vivem perto do chão.


“É possível que a queda de galhos e árvores mortas tenha prejudicado as aves insetívoras, que dependem do sub-bosque aberto, sem muitos galhos caídos, para se alimentar”, diz Alexandre Aleixo.


Por outro lado, aumentou a população de espécies que vivem em um sub-bosque mais fechado, em meio a um emaranhado de ramos.


O pesquisador ressalta que Manaus não é uma região tão afetada pela diminuição da chuva e o aumento das secas, que ocorre de forma mais intensa em estados como Mato Grosso, Pará, Rondônia e Acre. “O fato de que esse efeito foi observado em Manaus é um alerta – pode ser que as perdas de biodiversidade sejam ainda maiores em outras regiões.”


O declínio das aves no PDBFF sugere que processos amplos estão afetando ambientes específicos de forma mais acelerada do que se imaginava. “O mesmo acontece com as grandes obras, como hidrelétricas, cujos efeitos de longo prazo são pouco conhecidos. Ao mostrar quais são as espécies mais frágeis e as mais resilientes, o estudo fornece indicadores importantes que ajudam a entender o impacto da interferência humana na biodiversidade”, afirma Ribas.


☛ Esse texto, de Gilberto Stam, foi originalmente publicado pela Pesquisa Fapesp de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui.


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