• Sandra Carvalho

A medicina chinesa tradicional desiste dos pangolins

Criticamente ameaçados, os animais agora ganham nova chance de sobrevivência.


Pangolim em reserva sul-africana | Foto: cc 2.0 David Brossard/Wikimedia Commons

A maldição dos pangolins são suas escamas, recomendadas há séculos pela medicina tradicional chinesa para melhorar a circulação do sangue, diminuir inchaço e inflamações e até aumentar o leite de amamentação de bebês.


O resultado tem sido a caça e a venda massiva dos pangolins chineses (Manis pentadactyla), colocando em risco sua sobrevivência. Hoje eles estão na Lista Vermelha dos animais criticamente ameaçados.


Esta semana, veio um alívio: a Farmacopeia Chinesa de 2020, que acaba de ser publicada, saiu sem os pangolins e suas escamas na lista dos ingredientes da medicina tradicional do país. A razão alegada: a farmacopeia vai tirar animais ameaçados de suas recomendações.


As escamas do pangolim são feitas de queratina, mesma proteína das unhas humanas, e nunca se provou cientificamente que façam bem à saúde.


"Remover o animal da farmacopeia vai reduzir efetivamente a demanda pelo consumo de pangolins e coibir caça e comércio ilegais", observou Sun Quanhui, cientista da organização World Animal Protection, ao jornal chinês estatal Global Times.


Segundo o jornal, havia cerca de 60 mil pangolins nativos da China em 11 diferentes províncias e regiões no final dos anos 90, mas o número caiu 90% de lá para cá.


A proteção do governo chinês ao animal começou timidamente em 2007, com a proibição da caça dos pangolins selvagens em matas e florestas e avançou um pouco mais em 2018, com o veto a importação dos animais e seus produtos.


Mas os pangolins continuaram a ser comercializados nos mercados chineses, já que a demanda pela medicina tradicional chinesa é muito forte no país.


A carne do animal também atrai os consumidores - consumir e servir pangolim é um símbolo de status na China, conforme artigo do New York Times.


A pandemia do novo coronavírus lançou uma nova luz sobre os animais, porque vários cientistas acreditam que a infecção se originou em morcegos e passou para humanos através dos pangolins, hospedeiros intermediários do vírus.


Essa tese aumentou a pressão pelo banimento definitivo dos mercados de vida selvagem, para evitar a eclosão de novas zoonoses. Também reforçou reivindicações de exclusão de animais silvestres da farmacopeia chinesa, para proteger sua vida.


Segundo a Associação de Medicina Chinesa, as escamas de pangolim podem ser substituídas por escorpiões, centopeias e unhas de porco.


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