• Sandra Carvalho

A variante ômicron, da descoberta às incertezas

Cientistas da África do Sul contam como identificaram a nova linhagem e o que sabem dela.


SARS-CoV-2
Micrografia eletrônica colorizada do SARS-Cov-2: as partículas do vírus estão em azul | Imagem: cc NIAID/Flickr

O mundo entrou em pânico com a mais recente variante de preocupação do novo coronavírus, a Ômicron. Bolsas despencam, fronteiras se fecham, mas na verdade pouco se sabe ao certo sobre o vírus.


O grupo de cientistas da África do Sul que identificou a ômicron tentou esclarecer algumas das dúvidas que estão no ar num artigo para o site The Conversation.


Eles são pesquisadores de quatro universidades (KwaZulu-Natal (#UKZN), Pretória (#UP), Stellenbosch (#SU) e Witwatersrand, conhecida como #Wits) e do Instituto Nacional de Doenças Trasmissíveis (NICD): Tulio de Oliveira, Marietjie Venter, Wolfgang Preiser, Cathrine Scheepers e Jinal Bhiman.


Para começar, por que a ômicron foi descoberta na África do Sul?


O país tem uma rede de vigilância genômica competente, que monitora o SARS-CoV-2 desde o início da pandemia. No fim do ano passado, já tinha identificado a variante beta em primeiro lugar.


"A caça de variantes, por mais empolgante que pareça, é realizada por meio do sequenciamento do genoma inteiro de amostras que deram positivo para o vírus", os pesquisadores escreveram.


"Este processo envolve verificar todas as sequências obtidas em busca de diferenças em relação ao que sabemos que está circulando na África do Sul e no mundo. Quando vemos várias diferenças, isso imediatamente levanta uma bandeira vermelha e investigamos mais para confirmar o que notamos."


A ômicron foi constatada em 77 amostras do vírus coletadas em meados de novembro na província de Gauteng, na África do Sul, e em pequeno número em Botswana.


Qual a razão para novas variantes surgirem na África do Sul?


Os pesquisadores-sul-africanos dizem que não sabem com certeza, mas levantam a teoria de que pessoas com sistemas imunológicos altamente comprometidos com infecção ativa prolongada, que não conseguem eliminar o vírus, podem ser a fonte de novas variantes.


Na África do Sul há muitos doentes com HIV em estágio avançado, sem tratamento eficaz, que reforçam essa teoria.


Por que a nova variante preocupa?


Os cientistas dizem não ter a resposta, mas chamam a atenção para mutações preocupantes que nunca foram observadas juntas, especialmente 30 mutações na proteína S, a spike.


Segundo eles, a ômicron não parace ser filha da delta ou neta da beta, mas representa uma nova linhagem de SARS-CoV-2. Veja o que eles escreveram:


"Algumas de suas alterações genéticas são conhecidas a partir de outras variantes e sabemos que podem afetar a transmissibilidade ou permitir a evasão imunológica, mas muitas são novas e ainda não foram estudadas. Embora possamos fazer algumas previsões, ainda estamos estudando até que ponto as mutações influenciarão seu comportamento."


De acordo com os pesquisadores, o significado das mutações só poderá ser realmente conhecido depois de estudos epidemiológicos e de laboratório que devem se prolongar por meses.


A ômicron tem sintomas diferentes, transmite mais facilmente ou ou provoca doença mais grave?


Os pesquisadores afirmam que até agora não há evidências de diferenças clínicas na Covid provocada pela nova variante.


Na província de Gauteng, que tinha um número baixo de casos de Covid-19 e onde as medidas de contenção do vírus tinham sido muito relaxadas, a nova variante se propagou rapidamente. Mas os cientistas dizem que ainda não dá para saber se ela é realmente mais transmissível.


Eles afirmam que tampouco há dados suficientes para conhecer o impacto da ômicron na gravidade da doenças.


As vacinas atuais continuam a proteger contra a Covid disseminada pela nova variante?


Os pesquisadores dizem que a possibilidade de a ômicron escapar da resposta imune é desconcertante, mas afirmam não saber se vai haver escape ou não. Havia pessoas vacinadas entre os primeiros infectados pela variante.


"Em última análise, tudo o que se sabe destaca que a vacinação universal ainda é a nossa melhor aposta contra a Covid-19 grave e, juntamente com intervenções não farmacêuticas, contribuirá muito para o sistema de saúde lidar com a próxima onda", eles concluem.


Enfim, vacina, distanciamento e máscaras não podem sair de cena tão cedo. ✔︎


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