• Sandra Carvalho

As vacinas chinesas vão nos salvar do coronavírus?

A China já oferece vacinas para funcionários de estatais, diz a agência Bloomberg.


Partículas do novo coronavírus (em amarelo) em células humanas (em roxo) | Imagem: NIAID/Flickr

O mundo corre desesperadamente atrás de uma vacina contra a Covid-19, em meio a uma pandemia que já contaminou mais de 10 milhões de pessoas e levou mais de meio milhão de vidas.


Há atualmente 172 diferentes projetos de vacina em andamento, segundo as estimativas do Instituto Milken. No meio desse turbilhão de tentativas, os chineses parecem correr mais rápido.


No dia 10 de junho, a agência Bloomberg revelou que o governo chinês já estava oferecendo vacinas para funcionários de empresas estatais que tinham de viajar para o exterior. Que vacinas seriam essas, aparentemente já prontas para uso?


São duas as vacinas oferecidas, ambas desenvolvidas pela CNBG, de Pequim, a maior empresa de produtos biofarmacêuticos da China, braço da estatal Sinopharm.


A CNBG (China National Biotec Group ) combina pesquisa e produção de vacinas e se apresenta como a quarta maior companhia do ramo no mundo. Fabrica também produtos derivados de plasma e de estética médica, como botox.


Testes em Henan


Ontem, a CNGB afirmou que uma das vacinas, desenvolvida pelo Instituto de Produtos Biológicos de Pequim, concluiu com sucesso as fases 1 e 2 de testes clínicos com 1.120 voluntários.


Segundo as informações prestadas ao jornal estatal Global Times, todos os participantes do teste produziram um nível alto de anticorpos depois de tomar duas doses da vacina.


Os testes clínicos foram iniciados em 27 de abril na cidade de Shangqiu, na província de Henan, na região central da China. Tudo nos conformes: num estudo duplo-cego, de forma randomizada e controlada.


Por enquanto, temos apenas a palavra da empresa - nenhum estudo saiu em em publicação científica, com revisão de pares, como é o padrão-ouro dos avanços da Ciência. Vale, portanto, o grão de sal de sempre.


Em geral, a fase 1 de testes/ensaios clínicos de vacinas serve principalmente para avaliar se são seguras, em aplicações num pequeno grupo de pessoas. Na fase 2, já num grupo um pouco maior, se verifica plenamente tanto a segurança quanto a eficácia da vacina. Na fase 3, os testes se ampliam de forma significativa, atingindo milhares e milhares de pessoas.


Duas doses


Os resultados positivos da outra vacina da CNBG, desenvolvida por um Instituto de Produtos Biológicos de Wuhan, foram divulgados em meados do mês, no dia 16.


De acordo com a empresa, todos os participantes desenvolveram anticorpos capazes de bloquear o novo coronavírus, o SARS/CoV-2.


Os testes foram iniciados em 12 de abril, também com 1.120 voluntários, conforme relatou o site americano FiercePharma, especializado na indústria farmacêutica.


De acordo com esse relato, os participantes dos testes receberam duas injeções da vacina com doses baixa, intermediária ou alta, ou duas injeções com placebo, com um intervalo entre elas de 14, 21 ou 28 dias.


Ainda segundo a FiercePharma, as vacinas aplicadas com intervalo de 14 e 21 dias com doses médias tiveram uma taxa de soroconversão de 97,6%. Com 28 dias, 100%. Esses resultados ainda não foram comprovados com a publicação do estudo num períodico científico.


As duas vacinas da CNGB usam o novo coronavírus inativado - são do tipo inativadas. Essa é uma tecnologia dominada há décadas, adotada em vacinas como as de pólio, hepatite A e influenza.


Uma das vacinas da CNGB, ou ambas, serão testadas na fase 3 dos testes clínicos nos Emirados Árabes Unidos (EAU), porque nessa fase os testes devem ser massivos e a China não tem doentes com Covid-19 em número suficiente.


Fase 3 nos Emirados Árabes


A CNGB não informou o quê exatamente será testado nos Emirados: as duas vacinas ou uma delas. O parceiro local é o Grupo 42, uma empresa de inteligência artificial e de computação em nuvem.


Se tudo der certo, a fase 3 de testes clínicos da CNGG se encerra em agosto. Os planos são de estudar os resultados em setembro, divulgar os dados em outubro e iniciar a produção de uma vacina no final desse mês.


Caso o planejamento vire realidade, haverá vacina para todo mundo? Não. Longe disso. Não vai dar nem para a China, quanto mais para o resto do globo.


Segundo o Global Times, uma fábrica em Pequim e outra em Wuhan conseguirão produzir 200 milhões de doses por ano. É vacina suficiente para 100 milhões de pessoas, já que duas doses são necessárias para cada uma (e a população da China hoje beira 1,4 bilhão de habitantes).


Não são apenas as vacinas chinesas da CNGB que chamam a atenção, é claro. Cinco das 10 vacinas em testes com humanos no globo atualmente são desenvolvidas na China.


Vírus atenuado


O destaque maior ainda é da empresa de capital aberto CanSino Biologics, de Tianjin, a única no mundo que já publicou um estudo sobre vacina contra o novo coronavírus testada em humanos num periódico científico, com a devida revisão de pares.


A CanSino leva a glória, mas a vacina não foi desenvolvida sozinha por ela - é uma parceria com o top virilogista Chen Wei, da Academia de Ciências Militares. A vacina usa como vetor um vírus atenuado do resfriado comum, o adenovírus 5.


É baseada na vacina contra o Ebola, que Chen desenvolveu mas nunca foi produzida em massa. Segundo o jornal South China Morning Post, de Hong Kong, é tida em alta conta pelo presidente Xi Jinping. Sua fase 3 dos testes será realizada no Canadá.


Há também, na linha de frente das vacinas chinesas, a vacina da Sinovac Biotech, uma empresa privada de Pequim. Batizada de CoronaVac, usa uma versão inativada do novo coronavírus, como as da CNGB.


Na fase 2 dos testes clínicos, a CoronaVac produziu anticorpos em 90% dos 600 voluntários do estudo, sem registrar reações adversas severas. Como a CNGB, a Sinovac também está devendo a publicação dos resultados num periódico científico.


A fase 3 dos testes clínicos da CoronaVac será realizada com brasileiros, numa parceria com o Instituto Butantan, de São Paulo. Estão previstos 9 mil voluntários no país.


De acordo com os planos, se os testes forem bem-sucedidos, o Butantan vai produzir a vacina em massa no Brasil para fornecer gratuitamente ao SUS até junho do ano que vem.


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