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Atrás das mãos que escreveram a Bíblia

Inteligência artificial ajuda a desvendar os mistérios dos Manuscritos do Mar Morto.


Manuscrito do Mar Morto no Museu da Jordânia, em Amã | Foto: cc 4.0 Osama Sukir Muhammed/Wikimedia Commons

Desde que os Manuscritos do Mar Morto foram acidentalmente descobertos mais de 70 anos em uma caverna nos Territórios Palestinos, eles têm sido uma fonte de fascínio.


Os pergaminhos são famosos por conter os manuscritos mais antigos da Bíblia Hebraica [Velho Testamento protestante]. Mas exatamente quem escreveu esses documentos importantes é um mistério.


Agora, graças ao uso da tecnologia, estamos chegando perto de compreender alguns dos antecedentes desses textos enigmáticos.


Em um novo estudo publicado na PLOS ONE, pesquisadores do Instituto Qumran da Universidade de Gronigen (RUG), nos Países Baixos, realizaram uma investigação robusta sobre a paleografia - o estudo da caligrafia antiga - de um dos pergaminhos [o projeto se chama "As Mãos que Escreveram a Bíblia].


Por meio de uma série de processos meticulosos, incluindo digitalização, leitura automática e análise estatística, a equipe propõe que dois escribas com caligrafia muito semelhante provavelmente escreveram as duas metades do manuscrito.


O pergaminho em questão, 1QIsaa, é um grande manuscrito e um dos sete encontrados perto do Mar Morto em Qumran, Territórios Palestinos, em 1947. O pergaminho de 2.000 anos preserva os 66 capítulos do Livro de Isaías da Bíblia Hebraica e é mais de mil anos anterior a outros manuscritos de Isaías.


Mínimas diferenças foram destrinchadas pelo algoritmo | Imagem: Maurf Dhali/Universidade de Groningen

Dois escribas


Os pesquisadores treinaram um algoritmo para separar a tinta de seu fundo, o couro ou o papiro do rolo. Então, o algoritmo estudou cada caractere, procurando por pequenas mudanças que pudessem sinalizar um escritor diferente.


Esse tipo de tecnologia algorítmica começou a ser usada nos estudos bíblicos e em humanidades digitais em geral [área de convergência entre Humanas e Ciência da Computação] apenas nos últimos anos.


Até certo ponto, o novo estudo derruba o argumento de que o texto original foi obra de um só escriba. No final da 27ª coluna de um texto de 54, os pesquisadores encontraram uma quebra no manuscrito - uma lacuna de três linhas e uma mudança no material. Uma segunda folha é costurada na primeira e, neste estágio, sugerem os autores do estudo, o escriba também mudou.


Esse resultado reforça a suposição geral e algumas pesquisas anteriores sugerindo que talvez houvesse equipes de escribas que trabalharam juntos nos Manuscritos do Mar Morto, com alguns operando como aprendizes junto aos membros mais antigos.


Um escriba diferente não é a única explicação possível, no entanto. Os autores observam que uma mudança de caneta, o afiamento de uma ponta, uma mudança nas condições de escrita ou na saúde do escriba podem contribuir para a diferença que encontraram. Ainda assim, a diferença parece bastante clara, e uma mudança de escriba é a conclusão mais provável.


Caverna de Qumran
Caverna de Qumran, onde os Manuscritos do Mar Morto foram encontrados | Foto: cc0 Effi Schweizer

Estudo bíblico do século 21


Os computadores são uma parte cada vez mais importante da análise de texto do século XXI.


Tenho visto um número crescente de papers em conferências sobre a Bíblia Hebraica e o Novo Testamento explorando vários aspectos do processo de transferência de textos para artefatos digitais (como o projeto Codex Sinaiticus), as questões relacionadas a como diferentes projetos podem fazer uso dos dados uns dos outros e o sucesso - ou não - dos processos de aprendizado de máquina.


Os estudiosos da Bíblia, incluindo um grupo de pesquisadores na Suíça, estão usando o aprendizado de máquina e a estilometria - o estudo do estilo linguístico - para determinar quais novas cartas foram de autoria do apóstolo Paulo, por exemplo.


Outros estão modelando textos para explorar temas históricos em toda a Bíblia Hebraica. O aprendizado de máquina também está sendo usado para mineração de texto - onde um texto alvo é comparado com muitos outros textos semelhantes para encontrar usos paralelos das mesmas palavras ou ideias - para explorar variações entre diferentes textos.


O número de resultados positivos encontrados dessa forma geralmente ultrapassa em muito o número proposto por pesquisadores humanos.


O grande número de possibilidades produzidas atualmente também excede o número de horas de pesquisa disponíveis para determinar quais são úteis para pesquisas em andamento e quais precisam ser descartadas como paralelas ao acaso.


No momento, as ferramentas de aprendizado de máquina precisam ser aprimoradas, mas elas chegarão lá.


Embora o uso de inteligência artificial no título do novo estudo publicado na PLOS ONE possa sugerir que os computadores assumiram o papel dos estudiosos no norte dos Países Baixos, esse certamente não é o caso.


Mas a mudança para o digital oferece uma nova abertura para o estudo de textos sagrados, particularmente as escrituras cristãs e a Bíblia Hebraica.


☛ Este artigo foi escrito por Peter Phillips, pesquisador em Teologia Digital da Universidade de Durham, da Inglaterra. Foi republicado do site The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o original em inglês.


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