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Bandeiras confederadas resistem da Irlanda ao Brasil

Texto de Jordan Brasher, professor de Geografia da Universidade Estadual de Columbus.


Encenação da guerra civil americana no Wisconsin
Encenação da guerra civil americana em Plymouth, Wisconsin, com a bandeira confederada | Foto: cc Jen Theodore/Wikipedia Commons

Os Estados Unidos não são o único país a debater símbolos confederados . A bandeira confederada pode ser vista tremulando na Irlanda, Alemanha, Brasil e outros países.


Às vezes, a bandeira vermelha com cruz azul e branca é aparentemente exibida como kitsch, uma espécie de americana. Outras vezes, sua exibição carrega um significado político mais reflexivo das origens da bandeira no Sul escravista dos Estados Unidos.


Onde quer que o tema dos confederados surja, geralmente irrompe uma controvérsia. Minha pesquisa acadêmica como geógrafo cultural traça como a iconografia confederada é costurada no tecido cultural de lugares a milhares de quilômetros dos Estados Unidos.


'Rebeldes' irlandeses


Na cidade de Cork, na Irlanda, os torcedores das equipes locais de futebol e de hurling há muito tempo balançam a bandeira confederada, que às vezes é chamada de "bandeira rebelde" das arquibancadas.


Ambas as equipes são chamadas de "Os Rebeldes" e as cores de seus times correspondem às da bandeira confederada.


Depois que a NASCAR baniu as bandeiras da Confederação de suas corridas em junho, um representante da Associação Atlética Gaélica anunciou que a organização também proibiria a bandeira nos jogos de futebol de Cork.


Alguns fãs dos rebeldes de Cork já tinham aposentado a bandeira. Em 2017, um defensor de estátuas confederadas matou a ativista antirracismo Heather Heyer em Charlottesville, Virgínia, cimentando para muitos a associação da bandeira à supremacia branca.


Mas os Red Hand Defenders, uma organização paramilitar de direita na Irlanda, ainda brandem a bandeira confederada por causa de seu potente simbolismo político.


O grupo protestante de linha-dura surgiu na região de Ulster em 1998 para se opor à possível separação da Irlanda do Norte do Reino Unido e à reunificação com a Irlanda.


Para frustrar essa campanha de governo autônomo dos irlandeses (Home Rule), os Red Hand Defenders executaram uma série de atentados mortais e, em 1999, mataram a advogada católica dos direitos humanos Rosemary Nelson.


A conexão da Irlanda com a Confederação remonta à Guerra Civil. Muitos dos generais confederados cujas estátuas pontilham o Sul dos EUA, incluindo Stonewall Jackson e Robert E. Lee, eram escoceses-irlandeses. Suas famílias vieram de Ulster, que inclui partes da Irlanda e da Irlanda do Norte.


Em um post de 2008 chamado "Guerra da agressão do norte", o site de fotografia Extra Mural Activity, baseado em Belfast, apresentou alguns murais na região de Ulster, incluindo um comemorando a herança de Ulster dos generais Lee e Jackson.


"A tentativa confederada de se separar da União durante a guerra civil americana é paralela à resistência lealista à Home Rule", explica o site.


Raízes confederadas do Brasil


Foto de festa confederada
Festa confederada na cidade paulista de Santa Bárbara d'Oeste: racismo subliminar | Foto: Jordan Brasher

Como a Irlanda, o Brasil tem uma conexão ancestral com a Confederação Americana.


Depois que a Guerra Civil acabou com a escravidão nos Estados Unidos, cerca de 8.000 a 10.000 soldados confederados deixaram o Sul vencido e emigraram para o Brasil.


Lá, as terras agrícolas eram baratas e a escravidão ainda era legal . Pesquisas históricas sugerem que 50 famílias confederadas compraram mais de 500 escravos negros no Brasil.


Hoje, os descendentes desses “confederados”, como esses americanos vieram a ser conhecidos em português, realizam um festival anual em Santa Bárbara d'Oeste, no estado de São Paulo, comemorando seu passado.


Fantasiados com roupas do Sul americano antes da guerra civil e do período da guerra, eles dançam quadrilhas ao som de country music num enorme palco estampado com a bandeira da Confederação, enquanto os visitantes desfrutam de frango frito e biscoitos do Sul e compram lembranças com o tema da Confederação.


O festival, realizado num cemitério protestante, onde muitos colonos confederados originais foram enterrados quando o Brasil era predominantemente católico, começou em 1980.


Desde o assassinato de 2017 em Charlottesville, o evento dos Confederados encontrou resistência dos negros brasileiros, que consideram sua romantização do escravidão do Sul e sua iconografia confederada perturbadora.


Festa confederada em Santa Bárbara
Conversa entre brasileiros brancos na festa de Santa Bárbara d'Oeste | Foto: cc Felipe Attilio/Wikimedia Commons

Supremacia branca na Alemanha


Para os neonazistas na Alemanha, a supremacia branca incorporada na iconografia confederada é útil. É um substituto da suástica nazista, que foi proibida na Alemanha desde o Holocausto.


Durante as encenações da guerra civil americana na Alemanha, os alemães que estão do lado do Sul costumam representar "fantasias nazistas de superioridade racial", definiu Wolfgang Hochbruck, professor de Estudos Americanos da Universidade de Freiburg, em 2011, para a revista The Atlantic.


Nessas situações, os alemães que empunham bandeira da Confederação compreendem claramente suas origens e significado históricos.


Nem sempre é esse o caso. Uma bandeira confederada apareceu espontaneamente na multidão na queda do muro de Berlim em 1989, por exemplo. Lá, pode ter sido entendido como um símbolo do anticomunismo.


Um estudo recente mostra que as escolas alemãs, como muitas nos Estados Unidos, ensinam a guerra civil americana como uma batalha principalmente pelo desejo dos estados do Sul de permanecer “livres” da interferência federal - não pelo desejo de preservar a escravidão.


Os historiadores desmentiram essa teoria do "direito dos estados" do conflito. Mas muitos na Alemanha ainda podem ver a bandeira como um símbolo de liberdade ou independência.


Às vezes, as pessoas na Alemanha e em outros lugares parecem encarar a bandeira confederada como simplesmente parte da cultura americana.


A iconografia confederada vista em um festival de música country em Geiselwind em 2007, por exemplo, provavelmente foi vista como kitsch.


Guerras culturais


Embora a iconografia confederada assuma significados diferentes em outros países, a pesquisa mostra que ela geralmente surge ao longo das fraturas políticas, conflitos religiosos e divisões raciais desses países.


Empunhar a bandeira confederada tende a inflamar as tensões sociais, reabrir velhas feridas e estimular debates sobre a história como os que estão em curso nos Estados Unidos.


Para os americanos, que estão quase igualmente divididos sobre se a Confederação representa racismo ou não, a bandeira da Confederação é hoje um sinal inconfundível de uma sociedade profundamente rachada.


Cinqüenta e dois por cento dizem apoiar a remoção de monumentos confederados de espaços públicos. Isso representa um aumento de 19 pontos percentuais desde 2017, quando sangue moderno foi derramado durante um embate sobre a Confederação do século 19.


Charlottesville obrigou a todos a enfrentar a realidade histórica do Sul da América e, cada vez mais, o seu surpreendente legado mundial no século 21.


Este artigo foi republicado do site The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o original em inglês.


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