• Sandra Carvalho

Eventos extremos perseguirão bebês de 2020

Os bebês passarão por 7,5 vezes mais ondas de calor que seus avós.

Incêndio no Pantanal
Incêndio na Serra do Amolar, Pantanal | Foto: Sílvio Andrade e André Zumak/IHP

O mundo que as crianças nascidas em 2020 vão receber de herança será carregado de eventos extremos - ondas de calor, inundações, secas, incêndios, ciclones tropicais e quebras de safras nas plantações.


Comparando com o mundo dos seus avós, os bebês de 2020 passarão por 7,5 vezes mais ondas de calor, 3,6 vezes mais secas, 2,8 vezes mais inundações de rios e 2 vezes mais incêndios.


Essas previsões sombrias foram feitas por um time internacional de 37 cientistas liderados pela Universidade Livre de Bruxelas (#VUB), da Bélgica. O estudo foi publicado na Science.


Conferindo o que significa esse salto de eventos extremos: enquanto a geração nascida em 1960 passará em média por 4 ondas de calor ao longo da vida, os bebês de 2020 enfrentarão 30.


Os pesquisadores compararam as perspectivas dos bebês nascidos em 2020 com a da geração de 1960 para todos os países do mundo e para diferentes cenários de aquecimento global - entre 1ºC e 3,5ºC acima das temperaturas da era pré-industrial.


As estimativas catastróficas só não se cumprirão se o mundo conseguir limitar o aquecimento global a apenas 1,5 ºC acima das temperaturas da era pré-industrial, como estipulado pelo Acordo de Paris, e parece cada vez mais complicado.


Neste caso, crianças de 2020 passarão por "apenas" 18 vezes mais ondas de calor.


"A consequência de as crianças sofrerem sequências sem precedentes de extremos climáticos ao longo de suas vidas agora pode ser atribuída à inação dos adultos de hoje".

Joeri Rogeli, do Imperial College


Mesmo que se consiga ficar em um aumento de temperatura de 1,5ºC, as perspectivas não são tranquilas para ninguém que nasceu depois de 1980, de acordo com o estudo - eventos extremos acontecerão mais, de qualquer forma, pelos estragos já feitos no meio ambiente.


"As pessoas com menos de 40 anos hoje viverão uma vida sem precedentes, mesmo sob os cenários de mitigação das mudanças climáticas mais rigorosos", observou o professor Wim Thiery, da VUB, o principal autor do estudo.


"Nossos resultados destacam uma grave ameaça à segurança das novas gerações e pedem reduções drásticas de emissões para salvaguardar seu futuro", completou.


O impacto do aquecimento, como tudo, será marcado pela desigualdade.


Segundo o estudo, considerando os compromissos do Acordo de Paris, os 53 milhões de crianças que nasceram desde 2016 na Europa e na Ásia Central passarão por quatro vezes mais eventos extremos do que a geração de 1960.


Mas os 172 milhões de crianças da mesma idade que nasceram na África subsaariana terão de enfrentar quase seis vezes mais eventos extremos e 50 vezes mais ondas de calor.


"A consequência de as crianças sofrerem sequências sem precedentes de extremos climáticos ao longo de suas vidas agora pode ser atribuída à inação dos adultos de hoje", criticou o professor Joeri Rogeli, do Imperial College London (#ImperialCollege), um dos autores da pesquisa.


“Com este estudo, colocamos a nu a injustiça fundamental da mudança climática ao longo das gerações, bem como as responsabilidades dos adultos e idosos de hoje no poder ", cutucou.


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