• Sandra Carvalho

Castores moldam a paisagem do Ártico

Com o aquecimento da região, eles se espalham pela tundra e multiplicam suas barragens.


Castor e sua barragem no Alasca | Foto: cc 3.0 Marcin Klapczynski/Wikimedia Commons

Se alguém está gostando da mudança climática no Ártico, são os castores do Alasca. Com o clima mais quente, eles avançam na tundra da região, fazem suas barragens e criam corpos d'água onde havia só havia permafrost.


Cientistas americanos da Universidade do Alasca Fairbanks (UAF) e alemães da Universidade de Potsdam e do Instituto Alfred Wegener se uniram para estudar esse impacto dos castores na tundra da Península Baldwin, no noroeste do Alasca.


Eles se basearam em imagens de satélite capturadas entre 2002 e 2019. O aumento de barragens que eles constataram é extraordinário. Numa área de 100 km2, as barragens foram de 2 para 98 nesse período.


Já numa região maior, de 430 km2, pegando todo o norte da península Baldwin, eles viram as barragens aumentarem de 94 para 409 entre 2010 e 2019.


Toca de castor | Foto: Guido Grosse/Instituto Alfred Wegener

Construir barragens para criar lagos é uma questão de sobrevivência para os castores - com as barragens eles se protegem dos predadores, como os ursos e lobos, garantem acesso mais fácil a comida, e deixam boiando os arbustos para construir suas tocas.


A consequência negativa das barragens e dos lagos e lagoas que elas criam é o derretimento dos solos congelados, o permafrost.


O resultado é mais um impulso para aceleração do aquecimento do Ártico, em curso nas últimas três décadas. Os pesquisadores caracterizaram os castores como "agentes da perturbação" nas regiões de tundra.


Na área próxima de Kotzebue, dentro da região estudada, eles viram que houve um aumento de 8,3% de superfície de água entre 2002 e 2019. Dois terços disso podem ser debitados aos corpos de água criados pelos animais, segundo o estudo.


Os castores são roedores poderosos, com dentes afiadíssimos, capazes de corroer o tronco de grandes árvores para montar suas barragens. Ao contrário dos ratos, seus parentes, que são peso-leve, um castor pode pesar até 30 quilos.


"Seus métodos são extremamente efetivos", comentou o pesquisador Ingmar Nitze, do instituto alemão Alfred Wegener, um dos autores do estudo, expert em solos congelados. "Qualquer um que queira prever o futuro do permafrost deve ter sempre o castor em mente."


A marca dos castores | Foto: Ingmar Nitze/Instituto Alfred Wegener

Há muitos anos os especialistas temem que, com a elevação da temperatura, o permafrost derreta e se torne instável, liberando grande quantidade de gases de efeito estufa. Essa é uma das razões pela qual monitoram essas paisagens com imagens de satélites.


Nesse acompanhamento, os castores surgiram com uma força inesperada. Os animais agem nos pontos da paisagem que podem inundar com mais facilidade. Às vezes, represam pequenos cursos d'água, às vezes a saída de lagos já existentes.


"Eles preferem as bacias hidrográficas drenadas", afirmou Benjamin Jones, o principal autor do estudo, da Universidade do Alasca Fairbanks. "Os animais descobriram intuitivamente que fazer barreiras nos locais de antigos lagos é uma maneira eficiente de criar habitat", explicou.


Resultado: um novo lago se forma, o permafrost da bacia se degrada, derretendo abaixo do lago e à sua volta. O estudo foi publicado em Environmental Research Letters.


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