• Sandra Carvalho

Cientistas erram feio ao contar o número de árvores da Amazônia

A floresta tem 6.727 espécies de árvores, não 16 mil, como se pensava.


Amazônia: contagens com critérios diferentes | Foto: cc Dallas Krentzel/Wikimedia Commons

Até agora, supunha-se que a Amazônia, a maior floresta tropical do mundo, tivesse 16 mil espécies de árvores. Engano: a floresta tem menos da metade disso - exatas 6.727 espécies de árvores nativas.


O responsável por essa contagem mais precisa é o botânico Domingos Cardoso, da Universidade Federal da Bahia (UFB). Ele coordenou um estudo com um time internacional de 43 cientistas sobre a diversidade da Amazônia.


A lista que ele e o time montaram inclui todas as espécies de taxonomia verificada . A pesquisa foi publicada no jornal PNAS de 3 de outubro, da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos.


As 6.727 espécies de árvores identificadas representam ainda uma diversidade impressionante - equivalem a 11% de todas as 60.065 espécies de árvores estimadas no mundo.


Os cientistas pesquisaram a Amazônia no Brasil, Bolívia, Peru, Equador, Colômbia e Escudo das Guianas, na Venezuela. Verificaram 14.003 espécies de plantas, entre árvores, arbustos, trepadeiras, epífitas e ervas rasteiras.


De total de 14.003 espécies, 48% eram árvores. Considerando a vastidão da Amazônia - 5,5 milhões de quilômetros quadrados, 3,6% da superfície terrestre do globo - alguma disparidade na contagem do número de espécies de árvores seria natural.


Mas como explicar o abismo entre 16 mil árvores e 6.727? Uma mudança dessas implode qualquer plano de conservação.


Sem savanas e florestas secas


Tanta divergência tem inúmeros motivos fáceis de entender e outros nem tanto.

Estudos anteriores consideraram uma área maior, a bacia hidrográfica inteira do rio Amazonas, que inclui vários biomas e áreas de até 4.000 metros acima do nível do mar.


A pesquisa atual, conduzida por Domingos Cardoso, focou no bioma de floresta tropical úmida em terras baixas, de até 1.000 metros. Excluiu savanas e florestas secas.


Nas pesquisas anteriores, houve coleta automática de dados, o que é sempre complicado em áreas com plantas insuficientemente catalogadas, como é o caso da Amazônia, e com dados nem sempre 100% confiáveis.


Além disso, segundo o novo estudo, em pesquisas anteriores muitas árvores foram contadas com duplicidade, porque seus nomes mudaram. Incluíram-se os novos sem excluir os antigos.


“Quando bati os olhos na listagem de espécies daquela compilação de 2016, rapidamente identifiquei cerca de 400 nomes de espécies que só ocorrem na Caatinga ou que eram completamente desatualizados ou duplicados”, disse Cardoso ao jornalista Peter Moon, da agência FAPESP.


Segundo relatou Cardoso a Moon, 40% dos nomes citados como árvores amazônicas tinham algum erro.


Se o angico foi citado duas vezes, duas espécies de árvores de goiaba foram citadas mais de 20.


Árvores de outras áreas do Brasil ou mesmo de fora foram incluídas nos estudos anteriores como nativas da Amazônia, como o pau-brasil, da região leste do país, e a magnólia, dos Estados Unidos.


O novo estudo está longe de esgotar o que é preciso saber sobre a diversidade de plantas na Amazônia. Mas o rigor introduzido agora talvez seja um bom começo.


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