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Como as primeiras pessoas chegaram às ilhas do Caribe?

Texto de Matthew Napolitano, Jessica Stone, Robert DiNapoli e Scott Fitzpatrick*


Trinidad e Tobago hoje: Trinidad foi povoada 7 mil anos atrás | Foto: cc0 Colin Watts/Unsplash

Os milhões de pessoas em todo o mundo que vivem em ilhas hoje podem usar um avião ou barco para ir para o continente ou outras ilhas.

Mas no passado remoto como as pessoas chegaram a ilhas distantes que nem podiam avistar de onde viviam? Muitas ilhas ao redor do mundo só podem ser alcançadas viajando centenas ou mesmo milhares de quilômetros em mar aberto.


Ainda assim, quase todas as ilhas onde há gente vivendo hoje já tinham sido povoadas entre 800 e 1.000 anos atrás.

Arqueólogos como nós querem entender por que as pessoas arriscaram suas vidas para chegar a esses lugares distantes, que tipos de barco e métodos de navegação usavam e que outras tecnologias inventaram para fazer isso.


As ilhas são lugares importantes para estudar porque contêm pistas sobre a resistência e sobrevivência humana em diferentes tipos de ambientes.

Um dos lugares mais interessantes para estudar esses processos é o Caribe, a única região das Américas onde as pessoas se estabeleceram em um arquipélago com algumas ilhas não visíveis dos arredores.


Apesar de mais de um século de pesquisas, ainda há muitas dúvidas sobre as origens dos primeiros caribenhos, quando migraram e quais os caminhos que tomaram.


Meus colegas e eu recentemente reanalisamos dados arqueológicos coletados ao longo de 60 anos para responder a essas questões fundamentais.

Povoando as ilhas uma por uma

Com base na descoberta de ferramentas de pedra exclusivas e restos de comida, como conchas e ossos, os arqueólogos têm um entendimento geral de que as pessoas se espalharam pelo Caribe em uma série de migrações que provavelmente começaram há pelo menos 7.000 anos e provavelmente se originaram do norte da América do Sul.

Os ameríndios remavam entre as ilhas em canoas e eram notavelmente hábeis em viagens em águas abertas.


Os arqueólogos não sabem o que inspirou as pessoas a colonizar as ilhas caribenhas pela primeira vez, mas sabemos que trouxeram plantas e animais do continente, como a mandioca e o gambá, para ajudar a garantir sua sobrevivência.

Existem duas ideias principais sobre o que aconteceu. Durante décadas, a noção prevalecente era que as pessoas migraram da América do Sul para as Antilhas em um padrão de “degrau” de sul para norte.


Como as ilhas se estendem em um arco suave de Granada até Cuba, no noroeste - muitas são amplamente visíveis de uma a outra - esse parece ser um caminho conveniente para os primeiros colonizadores.


Caribe hoje no Google Maps

Esta hipótese, no entanto, foi contestada por evidências de que alguns dos primeiros locais habitados estão nas ilhas do norte.


As análises do vento e das correntes oceânicas sugerem que, na verdade, era mais fácil viajar diretamente entre a América do Sul e o norte do Caribe antes de seguir para o sul. Os pesquisadores chamam essa proposta de migração de norte para sul de hipótese da “rota para o sul”.


Descobrir qual modelo para colonizar o Caribe melhor se ajusta às evidências depende de ser capaz de atribuir datas precisas para a atividade humana preservada no registro arqueológico.


Para fazer isso, os pesquisadores precisam de muitas datas confiáveis ​​de muitos locais diferentes das ilhas para estabelecer como, quando e de onde as pessoas desembarcaram.

Os arqueólogos normalmente usam uma técnica chamada datação por radiocarbono para descobrir a idade de um artefato. Quando um organismo morre, ele para de produzir carbono e seu carbono remanescente decai em uma taxa fixa de tempo - os arqueólogos dizem que "a morte inicia o relógio".


Dados revisados


Ao medir a quantidade de carbono que resta no organismo e, em seguida, realizar alguns cálculos adicionais, os cientistas ficam com uma data provável da morte desse organismo.

Os arqueólogos freqüentemente datam coisas como restos de comida, carvão de fogueiras ou madeira nas construções onde foram encontrados.


Se os arqueólogos datam conchas encontradas em uma pilha de lixo, eles podem dizer, geralmente com um intervalo de 25 a 50 anos ou mais, quando o marisco foi pescado para uma refeição.

Recentemente, reavaliamos cerca de 2.500 datas de radiocarbono de centenas de sítios arqueológicos em mais de 50 ilhas do Caribe.

Os arqueólogos têm datado achados por radiocarbono no Caribe desde 1950 - quando a técnica do radiocarbono foi usada pela primeira vez.


Mas os métodos de datação e os padrões que os cientistas seguem melhoraram dramaticamente desde então. Parte do nosso trabalho era ver se cada uma das 2.500 datas de radiocarbono disponíveis atenderiam aos padrões atuais.


Datas que não atendiam a esses padrões foram descartadas, deixando-nos com um banco de dados menor, apenas com as datas mais confiáveis ​​para a atividade humana.


Onde as pessoas viviam primeiro?

Ao analisar estatisticamente essas datas restantes, confirmamos que Trinidad foi a primeira ilha caribenha colonizada por humanos, há pelo menos 7.000 anos.


Trinidad está tão perto da América do Sul que apenas barcos simples - ou mesmo nenhum - eram necessários para chegar lá.

Depois de Trinidad, os assentamentos mais antigos ocorreram entre 6.000 e 5.000 anos atrás no norte do Caribe, nas ilhas maiores das Grandes Antilhas: Cuba, Porto Rico e São Domingos.


Para alcançar essas ilhas, foi necessário cruzar passagens de água onde nenhuma ilha era visível a olho nu. Os navegadores confiam em outras técnicas de localização - como correnteza, padrões de nuvens, observação de pássaros voando em uma determinada direção - para saber se há terra mais à frente.


Por volta de 2.500 anos atrás, as pessoas se espalharam para colonizar outras ilhas no norte das Pequenas Antilhas, incluindo Antígua e Barbuda.


Com base nesses dados, os padrões de ocupação inicial do Caribe são mais consistentes com a hipótese da rota para o sul.


Bahamas: primeiros habitantes mais recentes | Foto: cc0 Buckeyebeth/Pixabay

Há cerca de 1.800 anos, uma nova onda de pessoas também se mudou da América do Sul para as Pequenas Antilhas, colonizando muitas das ilhas desabitadas restantes.


Cerca de 1.000 anos depois, seus descendentes se mudaram para as ilhas menores das Grandes Antilhas e do arquipélago das Bahamas. Foi quando a Jamaica e as Bahamas foram colonizadas pela primeira vez.

Nossos resultados de pesquisa também apoiam a visão amplamente aceita de que o meio ambiente desempenhou um papel significativo em como e quando as ilhas foram colonizadas.

Os arqueólogos sabem que, uma vez que as pessoas se instalaram nas ilhas, frequentemente se mudaram entre elas. Nem todas as ilhas são iguais e algumas oferecem mais ou melhores recursos do que outras.


Por exemplo, nas Bahamas e nas Ilhas Granadinas, a principal forma de obter água doce é cavando poços; não há riachos ou nascentes.


Algumas ilhas careciam de argila para a fabricação de cerâmica, importante para cozinhar e armazenar alimentos. As pessoas também podem ter viajado para ilhas diferentes para ter acesso a locais preferenciais de pesca ou caça ou procurar parceiros para casar.

Fortes ventos sazonais e correntes facilitaram a viagem entre as ilhas. Essa também é provavelmente uma das razões pelas quais os caribenhos nunca desenvolveram a vela ou outras tecnologias marítimas que eram usadas no Pacífico, Mediterrâneo e Atlântico Norte na mesma época. As canoas cruzavam entre a América do Sul e as ilhas muito bem.

As interpretações do comportamento humano anterior em sítios arqueológicos são baseadas em datas de radiocarbono para estudar as mudanças ao longo do tempo.


Para os arqueólogos, é importante periodicamente dar uma nova olhada nos dados para ter certeza de que as narrativas construídas sobre esses dados são confiáveis.


Nossa revisão do registro de radiocarbono para o Caribe nos permitiu mostrar - com maior precisão - as maneiras pelas quais a região foi colonizada pela primeira vez pelas pessoas, como elas interagiram e se moveram entre as ilhas e como suas sociedades se desenvolveram após a colonização inicial.


*Matthews Napolitano, Jessica Stone e Scott Fitzpatrick são da Universidade de Oregon e Robert DiNapoli é da Universidade Estadual de Nova York em Binghamton.


☛ Este artigo foi republicado do site The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o original em inglês.


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