• Sandra Carvalho

Como o amor, o DNA está no ar

Cientistas identificam animais com base em amostras do ar em zoológicos.


Coleta de ar no Zoológico de Copenhague
A pesquisadora Kristine Bohmann, da Universidade de Copenhague, coleta ar no zoológico da cidade | Foto: cc Cristian Bendix

DNA deixa sempre rastros - na água dos lagos e dos rios, nas folhas das árvores, no solo. É o chamado DNA ambiental, ou #eDNA. Agora se sabe que o DNA deixa sua marca com abundância também no ar.


Dois grupos de cientistas europeus, trabalhando separadamente, conseguiram identificar animais de zoológicos com base no DNA presente em amostras locais de ar.


Um deles é da Universidade Queen Mary de Londres (#QMUL) e outro da Universidade de Copenhague (#UCPH).


O eDNA já vem sendo usado com sucesso nos últimos anos para identificar em amostras de água peixes e organismos aquáticos difíceis de encontrar ou enxergar. Mas é a primeira vez que o DNA ambiental do ar é usado para identificar animais vertebrados.


Os dois estudos foram publicados de comum acordo no mesmo dia (6 de janeiro) no jornal Current Biology e divulgados em conjunto.


"Capturar DNA ambiental do ar de vertebrados nos permite detectar até mesmo animais que não podemos ver", afirmou a pesquisadora Kristine Bohmann, da Universidade de Copenhagen.


O método tem vantagens sobre a identificação de animais através da observação direta dos animais pelos cientistas, pois é mais rápido e mais barato. E também tem vantagens sobre as câmeras de monitoramento, que exigem olhar milhares de imagens.


O eDNA do ar dos zoológicos pode vir da respiração dos animais, da sua saliva, dos pelos, das fezes - os cientistas não determinaram precisamente de onde ele vem.


A professora Elizabeth Clare coleta amostras de ar | Foto: cc Elizabeth Clare

A equipe da Universidade Queen Mary detectou DNA de 25 mamíferos e pássaros, entre os quais tigres, lêmures e dingos do zoológico de Hamerton, no interior da Inglaterra.


Foi captado DNA até de animais que estavam em edifícios selados. "Os animais estavam dentro, mas seu DNA estava escapando" observou Elizabeth Clare, que chefiou os trabalhos da Queen Mary e hoje leciona na Universidade York de Toronto.


Os pesquisadores detectaram inclusive o DNA de um ouriço eurasiano ameaçado de extinção no Reino Unido que estava fora do zoológico.


Inicialmente, a equipe de cientistas pensou em fazer o experimento numa fazenda, mas desistiu.


"Se você pegar o DNA de uma vaca, terá de se perguntar se a vaca é do lugar ou de um local a 160 km de distância, ou ainda se não se trata da carne do almoço de alguém", notou Clare.


"Usando o zoológico como modelo, não há outra maneira de detectar o DNA de um tigre, exceto pelo tigre do zoológico", ela complementou. "Isso nos permite realmente testar as taxas de detecção."


A equipe da Universidade de Copenhague identificou 49 espécies de mamíferos, pássaros, répteis, anfíbios no zoológico da cidade. Entre eles, um okapi e um tatu.


Animais que não eram mantidos pelo zoológico, como o rato-marron, também foram identificados. Peixes usados na alimentação dos animais também foram identificados.


“A natureza não invasiva desta abordagem a torna particularmente valiosa para a observação de espécies vulneráveis ou ameaçadas de extinção, bem como aquelas em ambientes de difícil acesso, como cavernas e tocas", destacou Clare.


"Os animais não precisam estar visíveis para que saibamos que estão na área se pudermos detectar traços de seu DNA literalmente do nada”.


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