• Sandra Carvalho

Documentada: a origem duvidosa do ouro brasileiro

Os indícios ilegais foram levantados pelo Instituto Escolhas, num raio X meticuloso.


Garimpo ilegal em terra yanomami
Garimpo ilegal em terra yanomami: crime | Foto: cc 2.0 Bruno Kelly/Amazônia Real

O ouro brasileiro está contaminado por indícios de ilegalidade. Em seis anos, de 2015 a 2020, o país comercializou 229 toneladas de ouro suspeitas - o que equivale a quase metade do ouro produzido e exportado pelo Brasil.


A estimativa é do Instituto Escolhas, que examinou mais de 40 mil registros de comercialização de ouro nesse período, as autorizações de extração do metal, os indícios de garimpo, os dados de exportações e as operações das empresas envolvidas nesses processos.


O Instituto Escolhas é uma organização focada em sustentabilidade, sem fins lucrativos, tocada com a colaboração de vários economistas, como Marcos Lisboa, do Insper, e consultores Bernard Appy e Zeina Latif.


A produção de ouro brasileira saltou de 79 mil toneladas em 2015 para perto de 92 mil em 2020. O ouro com indícios de ilegalidade foi de quase 32 mil toneladas para 42 mil nesse período, conforme o Instituto Escolhas.


Esse ouro ilegal sai bastante de terras indígenas e unidades de conservação, em tese protegidas da ação predatória do garimpo, mas em muitos casos deixadas sem defesa contra a mineração ilegal.


Todo ouro que sai do garimpo precisa ser vendido para empresas autorizadas pelo Banco Central, as DTVMs, mas isso não garante que só ouro legal seja comercializado.


Como não há fiscalização, o ouro extraído ilegalmente é "lavado" com o uso de um título de extração válido, isto é, com um "título fantasma". Só de ouro com "títulos fantasmas" foram comercializadas quase 93 mil toneladas em seis anos.


De acordo com o levantamento, cinco empresas do setor financeiro são responsáveis por um terço das 229 toneladas do metal de origem duvidosa comercializadas em seis anos.


A maioria do ouro suspeito (54%) sai da Amazônia , principalmente dos estados de Mato Grosso (26%) e Pará (24%), segundo o Instituto Escolhas.


As principais DTVMs que compram ouro na região são a F.D'Gold, a Ourominas, a Parmetal e a Carol. Segundo o levantamento, 87% das operações delas são duvidosas.


Três - a F.D'Gold, a Carol e a Ourominas - já são processadas pelo Ministério Público Federal (#MPF) no Pará por comercialização de ouro ilegal.


Essas quatro DTVMs têm sede em São Paulo e atendimento na Amazônia, e fazem bem mais do que comprar o ouro do garimpo.


De acordo com o Instituto Escolhas, envolvem-se em toda a cadeia de produção e venda - na extração e refino do metal, nas exportações do produto e nas relações políticas do setor.


Outra DTVM, criada em setembro de 2020, começa a se destacar também na compra de ouro da Amazônia: é a Fênix. Em 2021, diz o Instituto Escolhas, ela já era a terceira maior do país.


Veja o levantamento meticuloso feito pelo instituto das ramificações da F.D'Gold no garimpo:

Gráfico de negócios do garimpo da F.D'Gold
Os negócios da F.D'Gold e sua atuação no garimpo de ouro | Gráfico: Instituto Escolhas

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