• Sandra Carvalho

Eles foram vistos como egoístas por 40 anos: um erro

O grupo étnico Ik, de Uganda, carregou má fama construída nos anos 70 por um antropólogo.


Mulheres Ik compartilhando uma refeição | Foto: Cathryn Townsend

Um povo sem coração, destruído pela competição individual por comida, egoísta, isolado e estranho. Foi assim que o antropólogo britânico-americano Colin Turnbull descreveu o pequeno grupo étnico Ik, de Uganda, num livro famoso, The Mountain People, em 1972.


Lá se vão mais de 40 anos e um time de cientistas da Universidade Rudgers (RU), de Nova Jersey, voltou ao convívio dos Ik, no nordeste de Uganda, e teve uma impressão completamente diferente.


Estudando os Ik como parte do projeto The Human Generosity, que avalia a influência da biologia e da cultura na generosidade humana, eles demoliram as afirmações de Turnbull.


Os Ik são cooperativos e generosos uns com os outros, com uma cultura que encoraja a ajuda mútua, garantem, num estudo publicado no jornal Evolutionary Human Sciences.


Cathryn Townsend, que fez pós-doutorado na Rutgers e hoje dá aula na Universidade Baylor, do Texas, passou o ano de 2016 com os Ik e voltou para Uganda em viagens curtas em 2017 e 2018. Ela é a principal autora do estudo.


Cathryn notou que um dos motes favoritos do grupo é tomora marang (é bom compartilhar). Mais: observou que muitos Ik acreditam que o espírito da Terra, chamado kijawika, pune quem não ajuda pessoas necessitadas e recompensa que é muito generoso.


"Não podemos mais usar os Ik como exemplo de sociedade que abraçou o egoísmo. Em vez de ser uma exceção, eles são tão cooperativos e generosos como outros povos. Não merecem a reputação dada pelo livro de Turnbull."

Por que duas visões tão diferentes de um mesmo grupo étnico? Os pesquisadores liderados pela Rutgers dizem que as observações de Turnbull sobre egoísmo da cultura Ik não são necessariamente incorretas, mas foram feitas durante uma época muito dura de fome e seca.


Passado esse período difícil, argumentam, a cooperação reemergiu. Para comparar a generosidade dos Ik com pessoas do mundo inteiro, eles usaram um jogo experimental, o Dictator Game, em que uma pessoa decide se doa dinheiro ou não. As doações dos Ik ficaram na média global.


Os pesquisadores também chamaram a atenção para o fato de que as afirmações de Turnbull contrariaram dois princípios básicos da biologia evolutiva: 1) que os humanos cooperam mais que as outras espécies; 2) que a cultura é facilitadora dessa cooperação.


"Não podemos mais usar os Ik como exemplo de sociedade que abraçou o egoísmo", comentou Lee Cronk, professor de Antropologia da Rutgers, um dos autores do estudo. "Em vez de ser uma exceção, eles são tão cooperativos e generosos como outros povos, e não merecem a reputação dada pelo livro de Turnbull."


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