• Sandra Carvalho

Em 20 anos, dá para reparar 78% dos danos em florestas

A estimativa vale para florestas tropicais e foi feita por um grupo internacional de cientistas.


Mata Atlântica
Trecho da Mata Atlântica com floresta em regeneração onde antes havia plantação de eucaliptos | Foto: Paulo Molin/Agência Fapesp

Destruir florestas tropicais sempre será mais rápido do que recuperar, mas é possível reparar 78% da devastação em terras abandonadas dentro de um prazo surpreendente curto: 20 anos.


Num estudo publicado hoje na Science, um grupo internacional de 91 pesquisadores, entre os quais vários brasileiros, avaliou quanto tempo leva recuperar florestas tropicais destruídas pelo desmatamento.


Os cientistas estudaram 77 florestas da América Central e do Sul e da África Ocidental para fazer essas estimativas, e verificaram que o prazo de recuperação varia com os atributos das florestas.


O solo pode se recompor em menos de uma década, mas a diversidade das espécies e a biomassa podem levar mais de um século, escreveram na Science. Em 20 anos, 60% da biodiversidade pode estar de volta. Em 40 anos, 76%. Em 80 anos, 90%. Confira:


Recuperação de florestas
Os cálculos da regeneração das florestas | Infográfico: www.2ndFOR.org/Universidade de Wageningen

Hoje restam poucas florestas primárias no mundo, segundo o professor Lourens Poorter, da Universidade de Wageningen (#WUR), dos Países Baixos, principal autor do estudo. "É essencial proteger ativamente as florestas antigas e impedir o desmatamento", ele frisou.


A pesquisa mostrou por A + B que nem tudo está perdido mesmo onde houve desmatamento completo. "Notamos que as florestas tropicais têm potencial para crescer naturalmente em áreas já desmatadas em terras abandonadas", ele complementou.


Segundo a pesquisa, na média, depois de 20 anos, 78% dos valores de crescimento das florestas primárias podem ser recuperados nessas florestas restauradas, chamadas de florestas secundárias.


A fertilidade do solo e sua capacidade de armazenar carbono estariam garantidas nesse prazo. Não seria uma volta perfeita ao passado, é claro.


"A floresta tropical consegue recuperar o número de espécies de árvores, mas nem sempre a mesma composição", observou à Agência Fapesp o professor Pedro Brancalion, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da USP, um dos autores do artigo.


"Nem todas as espécies presentes em matas conservadas recolonizam florestas regeneradas; algumas são mais sensíveis e podem desaparecer", ele advertiu. O estudo prevê que a composição das espécies pode demorar mais de 120 anos.


Segundo relatório deste ano do Global Forest Watch, os trópicos perderam 12,2 milhões de hectares de vegetação em 2020.

A recuperação de florestas pode ser feita de diversas formas, que vão da regeneração natural às agroflorestas.


"Não há bala de prata para restauração, e um mix de restauração natural e restauração ativa pode ser necessário", destacou o cientista Bruno Hérault, da organização francesa de pesquisa CIRAD, de Paris, outro dos autores do estudo.


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