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Com escola, risco de Covid cresce para 340 mil idosos paulistanos

A advertência sobre a retomada das aulas vem da Faculdade de Saúde Pública da USP.


São Paulo: os mais jovens saem e contaminam os idosos em casa | Foto: cc Roberto Parizotti /Fotos Públicas

Mais de 20% dos idosos da cidade de São Paulo moram em casas com jovens em idade escolar – fato que precisa ser levado em conta ao se discutir o retorno das aulas presenciais. 


O alerta foi feito pela professora da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP-USP) Yeda Duarte na última quinta-feira (24/09), durante o webinar “Covid-19, 60+: que epidemia é essa?”, promovido pela Agência Fapesp em parceria com o Canal Butantan.


“Estamos falando de aproximadamente 340 mil idosos em contato próximo com crianças e adolescentes que vão retornar à vida normal, podem ser [portadores do SARS-CoV-2] assintomáticos e vão trazer essa contaminação para dentro de casa”, disse as pesquisadora.


Duarte coordena desde o ano 2000, com apoio da Fapesp, o Estudo Saúde, Bem-Estar e Envelhecimento (SABE), que busca avaliar periodicamente as condições de vida e saúde de moradores do município de São Paulo com 60 anos ou mais.


O dado apresentado no seminário foi extraído da edição mais recente, conduzida entre 2015 e 2017 com 1.236 participantes selecionados para representar o perfil da população idosa da capital.


Nos últimos meses, em parceria com pesquisadores do Instituto Butantan, a equipe do SABE tem investigado como a Covid-19 vem afetando esse grupo de voluntários.


O que os testes dizem


Além de entrevistas por telefone para avaliar o impacto da doença e do isolamento social, foram feitos exames sorológicos (para buscar a presença de anticorpos contra o novo coronavírus) em 310 idosos e em todas as pessoas com quem eles mantêm contato frequente.


No caso de indivíduos que apresentaram sintomas suspeitos nos 15 dias que antecederam a coleta, também foi feito o teste de RT-PCR (que detecta o RNA do vírus e é o principal método de diagnóstico da Covid-19).


Dados preliminares do SABE-Covid (80% dos resultados tabulados) apontam uma soroprevalência de 4,5% entre os idosos avaliados. Entre seus principais contactantes o percentual foi mais que o dobro: 9,6%.


“O maior número de reagentes está entre os contactantes e essa é uma questão importante quando se fala em retomar as atividades normais. Os idosos estão nas suas casas e, na maioria das vezes, cumprindo o distanciamento social. Mas estão sendo contaminados pelas pessoas que continuam circulando pela cidade e trazem o vírus de fora para dentro”, afirmou Duarte.


A maioria dos casos e os dois únicos óbitos registrados no grupo ocorreram na zona sul da cidade, em bairros como Campo Limpo, Jardim Ângela e Jardim São Luís.


Na sequência estão Pirituba, Freguesia do Ó (ambos na zona norte), Aricanduva e Artur Alvim (na zona leste). Segundo Duarte, a maior soroprevalência em bairros periféricos tem relação com as condições de moradia nesses locais.


“Há, por exemplo, um maior número de pessoas vivendo na mesma casa. Esse aspecto da desigualdade social precisa ser considerado ao se definir a flexibilização das medidas de controle e os grupos prioritários para vacinação”, destacou.


Dados do Sistema de Informação de Vigilância Epidemiológica da Gripe (SIVEP-Gripe), apresentados no evento pelo médico Paulo Rossi Menezes, membro da Coordenadoria de Controle de Doenças (CCD) da Secretaria Estadual da Saúde, corroboram a avaliação de que a maioria das contaminações entre os idosos ocorreu em casa.


Infecção dentro de casa


“Após ser introduzida a obrigatoriedade do uso de máscaras, no mês de maio, houve uma inflexão dramática nas curvas de internação e de mortalidade por síndrome respiratória aguda grave [SRAG] associada à Covid-19 na capital e na Grande São Paulo. Mas isso quando se olha a população como um todo. Já quando se olha apenas as curvas das pessoas com 60 anos ou mais o padrão é totalmente distinto. O crescimento não se interrompe quando a máscara é introduzida e se mantém até o fim de junho. Isso reforça a ideia de que os idosos estão sendo infectados dentro de suas casas. As pessoas que moram com eles saem às ruas de máscara, mas tiram a proteção ao retornar”, explicou.


Segundo Menezes, os casos confirmados de Covid-19 no Estado de São Paulo estão concentrados na faixa de 30 a 50 anos de idade, à qual pertence boa parte dos indivíduos que continuaram trabalhando no período de quarentena.


No entanto, os idosos representam três quartos das mortes confirmadas. Desses, 83% tinham uma ou mais doenças crônicas, sendo as principais cardiopatias (52,4%), diabetes (36,5%) e doenças neurológicas (10,4%). Entre as pessoas com mais de 60 anos que precisaram ser internadas após contrair o vírus, 42% evoluíram para óbito.


“Embora não apareçam nas notificações, as demências e os transtornos mentais como a depressão são comorbidades que considero importantes para o desfecho desfavorável”, disse Menezes.


☛ Esse texto, de Karina Toledo, foi republicado da Agência Fapesp de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-N-ND. Leia o original completo aqui.


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