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Floresta de Carajás pode perder morcegos e aves

Modelos climáticos preveem aumento de temperatura de até 3,8º C em 2070.


Flona Carajás
Fauna da Floresta Nacional de Carajás: ameaça do clima | Foto: BRANDT/Vale

Nas próximas décadas, a Floresta Nacional de Carajás, uma área preservada no sudoeste do estado do Pará com cerca de 40 mil hectares — quase três cidades de São Paulo —, poderá perder 57% das espécies de morcegos encontradas na região (de um total de 83 espécies), 95% das de abelhas (de um total de 216) e até 70% das de aves (de um total de 501) em razão das mudanças climáticas, de acordo com estudos do Instituto Tecnológico Vale (ITV), Universidade de São Paulo (USP) e Universidade Federal do Pará (#UFPA).


Os modelos climáticos do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (#IPCC) preveem que a emissão de gases de efeito estufa pode causar um aumento de temperatura de 1,5 a 3,8 graus Celsius (ºC) até 2070, dependendo dos cenários utilizados, que variam dos mais moderados aos mais pessimistas.


Com o clima mais seco, a floresta se tornará menos densa e ficará mais vulnerável ao fogo e poderá se transformar em algo parecido com o Cerrado típico, com árvores baixas e esparsas.


“Os animais que provavelmente desaparecerão desempenham papéis ecológicos e econômicos importantes”, alerta a ecóloga Vera Lúcia Imperatriz-Fonseca, da USP e do ITV.


Ela participou do estudo sobre abelhas publicado na revista Regional Environmental Change em fevereiro de 2020, sobre aves, que saiu na PLOS ONE em abril de 2019, e sobre morcegos, na Biological Conservation de fevereiro de 2018.


Segundo ela, com uma reduzida diversidade de abelhas, aves e morcegos polinizadores, a reprodução das plantas será mais difícil; com menos morcegos e aves que comem frutos, a dispersão de sementes será menos eficiente.


Isso diminuirá ainda mais a capacidade de regeneração da mata enquanto a temperatura aumenta. Por sua vez, a perda de morcegos e aves que comem insetos e ajudam a controlar pragas deverá causar prejuízo na agricultura.


Além disso, pode aumentar o número de insetos que transmitem doenças. “As abelhas que polinizam lavouras serão algumas das mais prejudicadas, acentuando ainda mais o prejuízo”, acrescenta Imperatriz-Fonseca.


Devido ao solo ferroso, Carajás é repleta de cavernas que servem de abrigo aos morcegos. Quando voltam ao abrigo depois de se alimentar, eles defecam na caverna, fornecendo alimento para animais invertebrados cavernícolas, os troglóbios, além de peixes e crustáceos adaptados a esse ambiente.


“Se os morcegos forem embora de Carajás, essa biodiversidade das cavernas, uma das maiores do mundo, provavelmente desaparecerá”, ressalta a pesquisadora.


“Conforme o aquecimento global avança e a paisagem se transforma, os animais deverão se movimentar na paisagem, buscando locais mais favoráveis à sua sobrevivência”, explica a ecóloga Tereza Cristina Giannini, do ITV e da UFPA, coordenadora dos estudos sobre aves, abelhas e morcegos. Seu trabalho mais recente tratou de corredores ecológicos e foi publicado na Biological Conservation em maio de 2021.


Para permitir esses deslocamentos, os pesquisadores argumentam que é preciso conectar Carajás a outras regiões bem conservadas das redondezas, especialmente a oeste, onde há áreas protegidas por unidades de conservação e terras indígenas.


As regiões ao norte apresentam clima estável e poderiam auxiliar na proteção da fauna, mas seria preciso recuperar as áreas que já foram desmatadas.


“Os corredores ecológicos que poderiam fazer essa conexão não podem ser estreitos como estradas, mas extensas áreas que conseguem preservar o clima original da floresta”, informa Imperatriz-Fonseca.


☛ Esse texto foi originalmente publicado pela Pesquisa Fapesp de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui.


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