• Sandra Carvalho

Game de ação pode prejudicar o cérebro, indica estudo canadense

O hipocampo, colocado de escanteio, perde células e pode se atrofiar.


Games: impacto negativo no hipocampo, apesar de ajudarem na memória de curto prazo   | Foto: Activision

Um estudo da Universidade de Montreal (UdeM) soltou o alerta: jogadores habituais de jogos de ação têm menos matéria cinzenta numa parte muito importante do cérebro, o hipocampo.


É com o hipocampo que as pessoas se orientam no espaço, usando a memória espacial, e se lembram de experiências passadas, com a memória episódica.


"Os videogames têm sido apontados como benéficos para certos sistemas cognitivos no cérebro, principalmente em relação à atenção visual e a memória de curto prazo", observou Greg West, um dos autores do estudo, professor de psicologia da Universidade de Montreal, num comunicado da universidade.


"Mas há também evidência comportamental que haja um custo para isso em termos do impacto no hipocampo", adverte.


O estudo foi publicado hoje no jornal Molecular Psychiatry.


A redução da matéria cinzenta no hipocampo ocorre, segundo o estudo, quando o jogador de games de ação em primeira pessoa usa estratégias não espaciais, que colocam o hipocampo de escanteio.


Quando ele usa estratégias espaciais dependentes do hipocampo, a redução não acontece. Ao contrário, a matéria cinza inclusive aumenta.


Os games de ação estimulam uma área do cérebro chamada núcleo caudado, um tipo de piloto automático, que nos lembra de fazer coisas como comer e dormir e guarda como se anda de bicicleta, por exemplo.


Na descrição do estudo, ali funciona um tipo de "sistema de recompensa" por nossas ações.


De acordo com a investigação, os games de ação estimulam mais o núcleo caudado que o hipocampo - 85% dos jogadores usam estratégias de jogo baseadas no núcleo caudado, deixando o hipocampo de lado. Resultado: perda de células do hipocampo e atrofia.


Doenças do cérebro


Se o hipocampo fica enfraquecido, lembrou o estudo, aumenta o risco de desenvolver doenças do cérebro - de depressão a esquizofrenia, de Alzheimer a desordem de stress pós traumático.


Greg West fez a investigação numa parceria com a professora de psiquiatria Véronique Bohbot, da Universidade McGill, também de Montreal.


Durante a pesquisa do impacto dos games, West e Bohbot testaram 100 pessoas, 51 homens e 46 mulheres, durante 90 horas. O impacto no cérebro dos participantes foi medido com imagens de ressonância magnética, exibidas em Molecular Psychiatry.


Os testes com games de ação foram realizados com jogos como Call of Duty, KillZone e Borderlands 2. Também houve testes com games de outro tipo, 3D, da série Super Mario.


Nos testes, os participantes foram classificados como aprendizes espaciais (os que usavam o hipocampo) e os aprendizes de resposta (os que usavam o sistema de recompensa do núcleo caudado).


Depois de 90 horas de jogos de ação, os aprendizes de resposta, que se apoiaram no núcleo caudado, estavam com hipocampo atrofiado.


Os jogos 3D, ao contrário, levaram ao aumento da matéria cinzenta de todos os participantes.

A solução para o problema de atrofia do hipocampo, segundo West, é uma mudança nos jogos de ação, de forma a encorajar os gamers a usar estratégias espaciais. Assim, o hipocampo seria ativado.


Uma providência prática seria tirar o GPS dos games, de forma que os jogadores tivessem que se orientar espacialmente por conta própria.


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