• Sandra Carvalho

Gundélia, pândano, chaya: é essa a comida do futuro?

Plantas pouco consumidas poderiam trazer mais diversidade para a mesa e alívio ao planeta.


Gundélia: as cabeças das flores podem ser comidas como legumes | Foto: RBG Kew

Quando se trata de comer, a humanidade tem três obsessões: arroz, milho e trigo. Para mais de quatro bilhões de pessoas, essa é a alimentação básica.


Não que os outros 3,5 bilhões variem muito na mesa. Apenas 15 alimentos cultivados em plantações respondem por 90% das calorias que a humanidade consome hoje em dia, segundo dados da FAO, a agência da ONU para alimentos e agricultura.


Qual é o problema? Essas opções tão restritas têm levado à má-nutrição, à obesidade e a um sistema de produção de alimentos nada sustentável, que estimula a mudança de clima com suas monoculturas e seus agrotóxicos.


Enquanto isso, uma gigantesca gama de plantas comestíveis e nutritivas é subutilizada. Exatas 7.039 espécies comestíveis aparecem num estudo recente do Kew Gardens, da Inglaterra, que mobilizou 210 cientistas em 42 países para levantar o estado geral das plantas no mundo.


Chaya: rica em proteína e vitaminas, mas tóxica se comida cru | Foto: RBG Kew

De todas essas espécies comestíveis, apenas 417 são consideradas opções para cultivo em plantações, segundo a pesquisa. Várias estão inclusive ameaçadas de extinção. Se fossem cultivadas comercialmente, estariam a salvo.


Os pesquisadores escolheram cinco dessas plantas para destacar. Elas são consumidas localmente hoje em dia, mas têm vocação para ganhar o mundo no futuro: gundélia, pândano, chaya, vagem de morama e fonio.


A gundélia, chamada pelos árabes de akkoub e pelos cientistas de Gundelia tournefortii, cresce quase exclusivamente nos solos rochosos do Mediterrâneo Oriental e no Oriente Médio.


Cabeças das flores ainda verdes podem ser consumidas como se fossem legumes, inclusive fritas com azeite e alho. Também podem ser usadas como ingredientes de omeletes e acompanhamento para carnes e grão-de-bico.


Pândano: o fruto é parecido com o abacaxi | Foto: RBG Kew

O pândano (Pandanus tectorius), uma planta muito resistente encontrada nas planícies costeiras do Havaí às Filipinas, produz um fruto semelhante ao abacaxi, que pode ser comido cru ou cozido. Suas folhas são usadas como tempero.


A chaya (Cnidoscolus aconitifolius), que começa ganhar fama de superalimento por seu poder nutritivo, é um arbusto de crescimento rápido nativo da Península Yucatán, no Sul do México.


É conhecido como espinafre-de-árvore, muito rico em proteína, vitaminas, cálcio e ferro. Precisa ser fervido em água por 20 minutos antes de ser consumido. Cru, é tóxico.


A morama, também chamada de marama (Tylosema esculentum), é um tipo de vagem natural das regiões áridas do sul da África. Seu consumo já é generalizado localmente. As sementes torradas têm o gosto de castanha de caju.


Vagem de morama: os feijões podem substituir a carne | Foto: RBG Kew

Os feijões da vagem podem ser cozidos com milho ou ser moídos para fazer mingau e uma bebida com gosto parecido com o do cacau. Eles também podem ser usados para fazer óleo, manteiga e leite. Funcionam bem como um substituto da carne. O tubérculo e os caules jovens são ricos em proteínas.


O fonio (Digitaria exilis), um tipo de grama, é encontrado em estado selvagem nas savanas da África Ocidental. É cultivado como cereal localmente, pois é nutritivo, resistente e cresce bem rápido. Só é difícil de colher.


Com seus pequenos grãos ricos em ferro, cálcio e diversos aminoácidos essenciais, pode-se fazer mingau, cuscuz e bebidas.


Fonio: grãos pequenos com vários aminoácidos essenciais | Foto: RBG Kew

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