• Sandra Carvalho

Ilhas Falkland: sorry, ingleses, vocês não foram os primeiros

Há evidências de que indígenas sul-americanos navegaram até lá vários séculos antes.


O navegador inglês John Strong é tido como o primeiro europeu a colocar os pés nas ilhas Falkland, em 1690. Até agora, considerava-se que ele foi a primeira pessoa a chegar a esse arquipélago remoto no Oceano Atlântico Sul, um território ultramarino do Reino Unido.


Bem, há evidências de que não foi bem assim. Um grupo de cientistas da Universidade do Maine (#UMaine) encontrou nas ilhas sinais de atividade humana numa época bem anterior à chegada dos europeus.


Segundo os pesquisadores, indígenas da América do Sul viajaram várias vezes para as #Falklands provavelmente entre 1275 e 1420, e podem inclusive ter chegado às ilhas antes de 1275.


Os argentinos têm razões para se alegrar com essa interpretação da história. Eles nunca levaram a sério o papel de John Strong.


Dizem que as ilhas foram descobertas pelo navegador português Fernão Magalhães, o primeiro a circum-navegar o mundo. Disputam até hoje com o Reino Unido a posse das ilhas Malvinas (Malvinas em espanhol, Falkland para todo o resto do mundo, decretou a ONU).


Quais são as evidências dos pesquisadores da Universidade do Maine? O grupo de cientistas, liderado pela paleocologista Kit Maine, examinou ossos de animais e registros de carvão das ilhas para desvendar seu passado.


Analisando um registro de carvão vegetal de 8.000 anos na Ilha Nova das Falklands, depararam com um aumento notável de atividade de fogo em 150 d.C, 1410 d.C e 1770 d.C. Este último ano coincide com o assentamento europeu inicial, pelo explorador francês Louis-Antoine de Bougainville.


Osso de leão-marinho
Crânio de leão-marinho encontrado numa pilha de ossos na Nova Ilha das Falkland | Foto: Kit Hamley/Universidade do Maine

Os pesquisadores também coletaram amostras de leões marinhos e pinguins da Ilha Nova perto de uma ponta de projétil de pedra consistente com a tecnologia usada por indígenas sul-americanos nos últimos mil anos.


Os ossos dos animais estavam amontados em pilhas, de uma maneira que sugere terem sido arranjados por humanos.


Partindo dessas evidências, os cientistas concluíram que indígenas sul-americanos provavelmente viajaram para as ilhas Falkland entre 1275 e 1420, em várias estadias de curta duração, sem se estabelecer no local.


Por isso, não teriam deixado tantos rastros, mas pegadas antropogênicas e paleoecológicas suficientes para o estudo.


Os pesquisadores não descartaram a chegada de humanos antes dessa época. Por quê? Eles encontraram um dente de uma raposa já extinta, a Dusicyon australis, conhecida como warrah, com data estimada de 3450 a.C por radiocarbono.


Como essa raposa foi parar lá? Charles #Darwin esteve nas Falklands em 1833 e o único mamífero que viu foi a raposa. Ele supôs que as ilhas fossem inabitadas, e que a warrah tivesse chegado lá por conta própria, sem ajuda humana, a explicação usual da época.


Houve também suposições posteriores de que as raposas chegaram às ilhas navegando em destroços de algum tipo ou pulando de pedaço em pedaço de gelo, já que a região é muito fria.


A explicação que Kit Maine oferece agora é outra. Ela levanta a hipótese que indígenas su-americanos introduziram a raposa nas ilhas antes da colonização europeia, já que tinham domesticado outras raposas.


Um indício: numa expedição de 2018 às ilhas, ela e sua equipe encontraram três ossos de warrah. Análises isotópicas e datação por carbono indicaram que o animal se alimentava de leões-marinhos e focas, como indígenas sul-americanos em tempos pré-históricos.


O estudo foi publicado em Science Advances. ✔︎


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