• Sandra Carvalho

Indústria de carros usa couro de áreas desmatadas, diz ONG

A organização inglesa Earthsight investigou os estragos feitos nas florestas do Paraguai.


Chaco paraguaio: a floresta cede lugar aos pastos para produção de couro de carros | Foto: Earthsight

A região do Chaco, no Paraguai, está sendo devastada com a derrubada ilegal de matas para criação de gado voltada à produção de couro para algumas das maiores indústrias europeias de carro, acusa a organização inglesa Earthsight.


No relatório Grand Theft Chaco, a ONG afirma que fazendeiros da região do Chaco desflorestaram terras dos indígenas Ayoreo Totobiegosode, que vivem isolados, para criar gado e fornecer couro para curtumes que abastecem várias indústrias automobilísticas.


"Nenhum proprietário de carro vai se sentir confortável em seu macio banco de couro sabendo que o último refúgio de um grupo indígena isolado foi ilegalmente desmatado para fornecer esse couro", comentou Sam Lawson, diretor da Earsight.


A área dos grupos Totobiegosode, conhecida pela sigla PNCAT em espanhol, é protegida desde 2001, mas perdeu 53 mil hectares de floresta para os pastos nos últimos 16 anos.


Perdas da área protegida PNCAT de 2005 em diante | Mapa: Earthsight

O relatório cita nominalmente a Jaguar Land Rover e a BMW como indústrias que alimentam o desmatamento.


Segundo a Earthsight, a Jaguar abriu uma investigação a respeito, e a BMW afirmou desconhecer que sua cadeia de suprimentos na América Latina tivesse esse tipo de problema.


Paradoxalmente, a BMW é uma das fabricantes de carros mais ativas em relação ao meio ambiente: tem uma política formal contrária a desflorestamento e tenta traçar a origem de suas matérias-primas.


Fabricantes como Ford, Hyundai, Toyota, Renault, Jaguar e PSA não fazem nem uma coisa nem outra, segundo o relatório Grand Theft Chaco.


A Volvo faz as duas coisas. Volkswagen e Daimler se posicionam contra o desflorestamento, mas, de acordo com a Earthsight, não rastreiam a origem de suas matérias-primas.


Ayoreo Totobiegosode: em isolamento no Chaco, em meio ao desmatamento | Foto: Survival International/GAT

De acordo com o relatório, um grande curtume italiano, Pasubio, um dos líderes globais de couro para carros, é o principal comprador de couro paraguaio.


Algumas empresas do Brasil são acusadas pelo relatório de atividades predatórias na cadeia de produção do couro paraguaio.


Segundo a Earthsight, os desmatamentos mais notórios, alguns permitidos, outros não, foram feitos pela companhia brasileira Yaguarette Pora na área PNCAT.


Outra empresa brasileira citada é a Caucasian SA, que já brigou com os grupos Totobiegosode nos tribunais. Conforme o relatório, a Caucasian é a responsável pela maior área recente desmatada na área protegida dos indígenas.


Os investigadores da Earthsight seguiram os caminhões da Caucasian e constataram que eles faziam entregas de vacas para frigoríficos que abastecem os curtumes de couro.


Uma subsidiária da multinacional brasileira Minerva Foods, FrigoAtena, também é mencionada como compradora de gado da Caucasian.


Fazenda no Chaco: ali as propriedades são gigantes | Foto: Earthsight

A investigação da Earthsight durou 18 meses e focou nas florestas do Gran Chaco, onde vivem o jaguar (o animal) e o tamanduá-bandeira.


As estimativas do relatório são de que o Chaco paraguaio perdeu área equivalente a um campo de futebol a cada dois minutos em 2019.


O Paraguai exporta anualmente 50 mil toneladas de couro wet blue (ainda nos estágios iniciais de processamento).


Perto de dois terços vão para Europa, quase integralmente para a Itália. Os curtumes italianos terminam de curtir o couro e o entregam para as indústrias de carros.


A indústria automobilística consome por ano entre 50 e 60 milhões de peles de vaca, segundo a Earthsight.


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