• Sandra Carvalho

Morcegos, temidos e desconhecidos na era do coronavírus

A descoberta de 4 novas espécies é um lembrete de que conhecemos pouco os morcegos.


Nova espécie de morcego-nariz-de-folha descoberta por exame de DNA | Foto: Bruce D. Paterson/ Field Museum

Cientistas americanos e quenianos descobriram quatro novas espécies de morcegos-nariz-de-folha na África - primos dos morcegos-de-ferradura da China apontados como a origem da pandemia atual de coronavírus.


O grupo de cientistas que descobriu as novas espécies entre outras aparentemente muito similares, examinando seu DNA, levantou o véu sobre o desconhecimento dos morcegos que persiste atualmente.


Calcula-se que haja mais de 1.400 espécies de morcegos, das quais se sabe muito pouco. Ignora-se onde a maioria vive, como vive ou qual é a sua relação com o meio ambiente. Pequenos, noturnos, são difíceis de estudar.


Sabe-se que eles prestam alguns serviços essenciais à natureza: polinizam as plantas e comem insetos que transmitem doenças.


Mas se sabe principalmente que eles carregam doenças, e que são os principais suspeitos de hospedar o temível SARS CoV-2, da pandemia de coronavírus. E até isso revela o conhecimento escasso desses animais.


Os morcegos-de-ferradura são tidos como a origem do novo coronavírus (eles teriam passado o SARS-CoV-2 para o pangolim, que teria feito a transição para os humanos). Mas há entre 25 e 30 espécies de morcegos-de-ferradura na China, e nenhuma certeza sobre qual delas tem a ver com a pandemia.


"Devemos a nós mesmos conhecer mais sobre eles e seus parentes", observou Bruce Patterson, curador de mamíferos do Field Museum, de Chicago, líder do estudo sobre as quatro novas espécies de morcego descobertas.


Colônia de nova espécie de morcego-nariz-de-folha em mina do Quênia | Foto: Bruce D. Paterson/ Field Museum

Os novos morcegos-nariz-de-folha identificados são da família Hipposideridae, que tem o nariz com abas, usadas como radar. Eles se espalham pela África, Ásia e Australásia.


Os pesquisadores examinaram o DNA de espécies do Field Museum recolhidas ao longo de décadas e constataram que morcegos-nariz-de-folha que pareciam de espécies conhecidas eram na verdade distintos, com histórias de evolução bem diferentes.


Seu estudo foi publicado no jornal ZooKeys.


Além de investigar as novas espécies, os cientistas se esforçam para derrubar os preconceitos atuais sobre os morcegos, lembrando que todos os animais carregam vírus, muitos deles inofensivos.


Mas como explicar que os morcegos sejam tão bons espalhadores de doenças? Segundo os pesquisadores, dois fatores pesam muito.


O primeiro: morcegos são animais sociais, e vivem em colônias de até 20 milhões de indivíduos. Tão próximos, é fácil para um patógeno se espalhar pela colônia toda.


O segundo fator está ligado à habilidade de voar dos morcegos, de acordo com os cientistas.


Voar exige muito - o corpo dos morcegos é tomado pelos músculos do peito e dos ombros, fazendo deles verdadeiros atletas. Eles também têm metabolismo e sistema imunológico muito fortes, permitindo que hospedem vírus sem ficar doentes. Mais: seu DNA se recupera de danos com eficiência.


O problema é quando os humanos entram em contato com os morcegos: o que não faz mal para eles pode ser fatal para nós. E quanto mais os habitats dos morcegos são destruídos pelos homens, quanto mais os morcegos são caçados e e mais se consome sua carne, mais riscos.


Se os morcegos não são molestados por humanos, a história é diferente. "A menos que você saia atrás dos morcegos, para intimidá-los ou matar, é muito improvável que eles transmitam doenças a você", notou Terry Demos, outro autor do estudo.


Para os cientistas, da mesma forma que é importante estudar como os morcegos podem transmitir doenças aos humanos, é importante que os humanos não persigam os morcegos na esperança de combater doenças.


"Os morcegos têm um lugar na natureza e desempenham funções ecológicas essenciais", argumenta Patterson. "Não podemos deixar que nosso pavor da Covid nos leve a destruir os sistemas ecológicos."


Veja mais: Como o morcego hospeda coronavírus sem ficar doente?


#Biologia #Coronavírus #DNA #Doenças #FieldMuseum #Genética #Morcegos #Vírus