• Sandra Carvalho

Mururé, coco-pau, jarana, sapucaia, xixuá, amapá-doce...

Catálogo da Embrapa revela árvores pouco conhecidas e várias vulneráveis na Amazônia.


Árvore da Amazônia
Castanha-do-brasil: árvores identificadas são a base de projetos sustentáveis | Foto:Daniel Palma Perez Braga/Embrapa

Identificar direito as árvores da Amazônia não é para qualquer um. E não é fácil nem mesmo para os mateiros, que ganham a vida com elas na floresta. Para esclarecer as dúvidas, a #Embrapa lançou um catálogo com 56 espécies nativas.


Abiu-vermelho, fava-bolota, louro-pimenta, parapará, sorva, tachi-branco, uxi... a lista das árvores apresentadas é uma coleção de nomes surpreendentes, pelo menos para quem não é bem enfronhado com a Amazônia.


O catálogo também lista árvores mais conhecidas, como cedro, jatobá e andiroba, numa seleção que destaca as oportunidades de exploração comercial que preservam as espécies na floresta.


O objetivo catálogo é ajudar a fazer o manejo sustentável das árvores da Amazônia, um aliado imprescindível para manter a floresta de pé.


O trabalho levou cinco anos até chegar ao ponto de publicação. Hoje está disponível gratuitamente, com download no site da Embrapa. As fichas das árvores são bem didáticas e as informações visuais muito completas, com fotos primorosas.


No catálogo se pode aprender, por exemplo, que a maçaranduba (Manilkara elata), uma madeira bem cara, é diferente da maparajuba (Manilkara bidentata) e da maçarandubinha (Manilkara paraensis).


As três espécies são parecidas e pertençem à mesma família, sendo confundidas com alguma frequência, e causando ruídos nos negócios das comunidades que exploram as árvores.


Cedro
Cedro: a madeira é nobre, mas a árvore está vulnerável | Foto: Daniel Palma Perez Braga/Embrapa

O catálogo foi feito sob medida para o projeto de desenvolvimento sustentável Virola-Jabotá, que fica na cidadezinha de Anapu, na região da Transamazônica, no Pará. Ali, a venda de madeira complementa a renda da agricultura.


O projeto envolve no total 40 mil hectares, com 160 famílias praticando extrativismo. Em manejo florestal, são 23 mil hectares e 30 famílias.


“Conhecer bem a floresta é fundamental para as comunidades realizarem o manejo adequado”, notou Ademir Ruschel, pesquisador da Embrapa Amazônia Oriental e um dos autores do catálogo.


Segundo Ruschel, um dos desafios do manejo sustentável nas comunidades locais é identificar corretamente as espécies, porque é comum um único nome popular se aplicar a espécies diferentes, com madeiras de características físicas divergentes e preços díspares.


A lista destaca com alertas as árvores que sofrem ameaça de extinção.


O pior caso, entre as 56 árvores do catálogo, é o do pau-amarelo (Euxylophora paraensis), usado para móveis, piso, barcos e construção civil pesada. O pau-amarelo é raro hoje em dia, classificado como criticamente em perigo, nível 5, o mais alto de todos. Não pode ser cortado.


Parapará
Parapará: flores lindas para paisagismo, mas madeira pouco durável | Foto: Daniel Palma Perez Braga/Embrapa

Outra árvore em apuros no catálogo, considerada de risco muito alto de extinção, nível 4, é a acapu (Vouacapouca americana). Ela tem múltiplos usos, de móveis de alto padrão a dormentes, passando por estacas de cerca nas fazendas. Como passou por extração desordenada, hoje não pode mais ser derrubada.


Outras cinco árvores aparecem no catálogo como vulneráveis, nível 3: amarelão, castanha-do-brasil, cedro, guajará-bolacha e maçaranduba.


Dessas, só a castanha-do-brasil (Bertholletia excelsa), também conhecida como castanha-do-pará, não pode ser cortada para ser vendida como madeira. Ela pode ser explorada de outra forma - a semente faz parte de dietas saudáveis e vende muito bem no Brasil e no mercado internacional.


Além de ser comestível, a castanha-do-brasil pode ser usada para fazer óleo para sabonetes, cremes, xampus e outros comésticos. Até a casca pode ser aproveitada em artesanato.


Para a metade das 56 árvores listadas, simplesmente não há literatura sobre o risco de extinção. "Podemos estar perdendo espécies sem ao menos conhecê-las", observou o engenheiro florestal Daniel Palma Perez Braga, outro autor do estudo.


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