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Neowise: a oportunidade rara de ver um cometa a olho nu

Texto dos cientistas britânicos Gareth Dorrian e Ian Whittaker*


Neowise visto da comunidade de Caliente, Califórnia | Foto: cc Jason Hullinger /Flickr

O cometa Neowise é interessante por ser primeiro cometa brilhante visível a olho nu desde meados dos anos 90 . Outra razão é que ele tem um período orbital relativamente longo - foi descoberto apenas alguns meses atrás.

O cometa Halley, por exemplo, leva cerca de 75 anos para retornar à mesma posição perto da Terra, o que significa que todos têm potencialmente a oportunidade de vê-lo duas vezes durante a vida.


O Neowise tem uma órbita de quase 6.800 anos, o que significa que a última geração de pessoas que o viu teria vivido durante o quinto milênio aC. Era um tempo bem anterior à palavra escrita, quando a população humana global era de cerca de 40 milhões de pessoas.

A causa desse tempo de retorno realmente longo é a forma elíptica da órbita do Neowise em torno do Sol.


No início do século XVII, o astrônomo Johannes Kepler definiu suas leis do movimento planetário, que se aplicam a qualquer objeto que orbita no espaço, incluindo cometas.


Essas leis afirmam que objetos em órbitas altamente elípticas se moverão rapidamente perto do baricentro da sua rota e muito mais lentamente longe do baricentro (o centro de massa de dois ou mais corpos que orbitam um ao outro).

Portanto, o cometa Neowise será visto apenas por algumas semanas perto da Terra enquanto estiver perto do periélio (sua posição mais próxima do Sol). Passará milhares de anos se movendo lentamente perto do outro extremo de sua órbita.


Seu afélio (ponto mais distante) é estimado em 630 unidades astronômicas (UA). Uma UA é a distância entre a Terra e o Sol.

Para colocar isso em perspectiva, a sonda Voyager 1 é o objeto humano mais distante da Terra e atualmente está a meras 150 UAs. O planeta anão Plutão também tem uma órbita elíptica, que varia de apenas 30 UAs no periélio a 49 UAs no afélio.

Os cometas geralmente têm duas caudas, e o cometa Neowise não é exceção. Uma é feita de material eletricamente neutro, como gelo de água e partículas de poeira, compondo a forma difusa branca ao redor do cometa e sua cauda.


À medida que o Sol aquece o cometa, essas pequenas partículas são liberadas e criam uma cauda brilhante atrás dele .

A segunda cauda é feita de um plasma - uma nuvem de gás eletricamente carregada. Ela brilha por fluorescência, o mesmo processo que causa a aurora na Terra, e é usado na iluminação de neon.


As cores podem ser verdes ou azuis, dependendo do tipo de gás carregado escapando do cometa. À medida que o plasma flui para longe do cometa, ele é guiado pelo campo magnético do Sol e pelo vento solar.


Isso causa separação entre as duas caudas - uma sendo conduzida pela direção do cometa e a outra pelo campo magnético do Sol.

Como identificar o Neowise

Embora o Neowise esteja muito distante da Terra - em sua aproximação máxima em 22 de julho ficará tão longe quanto Marte - ele é visível no céu noturno a olho nu.

Estima-se que o cometa esteja atualmente na magnitude 1,4 - uma medida do brilho que os astrônomos usam, com números menores indicando objetos mais brilhantes.


Vênus, que é o objeto planetário mais brilhante do céu, tem cerca de -4. O cometa Hale-Bopp atingiu uma magnitude máxima de 0 em 1997 devido ao seu tamanho excepcionalmente grande, enquanto o cometa McNaught era visível no hemisfério sul com uma magnitude máxima de -5,5.

O Neowise pode ficar mais brilhante. O nível de brilho dependerá primariamente da quantidade de material que sairá de sua superfície e não da distância da Terra. Este material consiste de partículas de gelo de água altamente refletivas do núcleo do cometa em erupção para o exterior, brilhando quando captam a luz do sol.

História rica

A história das observações sobre cometas é extensa, fazendo contribuições vitais para o desenvolvimento da astronomia moderna. Teve um grande impacto na história humana.


O cometa Halley, por exemplo, foi retratado na tapeçaria de Bayeux, uma vez que apareceu nos meses que antecederam a conquista normanda da Inglaterra em 1066 (magnitude estimada em 1).

No final do período medieval, os cometas ajudaram os astrônomos a refinar fundamentalmente sua compreensão do sistema solar.


Um componente essencial do modelo geocêntrico ptolomaico padrão do sistema solar, que dominou a astronomia por 15 séculos, determinava que os planetas fossem fixados a uma série de esferas celestiais transparentes concêntricas, com a Terra no centro.

Mesmo após a Revolução Copernicana, que colocou o Sol no centro do sistema solar, as esferas celestes foram mantidas como um conceito.


No entanto, no final dos anos 1500, vários astrônomos, incluindo Tycho Brahe, notaram que os cometas com suas órbitas altamente elípticas pareciam passar por essas esferas sem impedimentos.


Essas observações contribuíram para o eventual abandono total do sistema ptolemaico e a subsequente explicação das órbitas planetárias por Johannes Kepler, que ainda hoje é usada.

Observações importantes durante a era espacial incluem o primeiro encontro próximo entre um cometa e uma espaçonave. O cometa Halley foi fotografado a uma distância de apenas algumas centenas de quilômetros pela sonda Giotto.


Em 2014, a sonda Rosetta se tornou a primeira a orbitar um cometa e a implantar uma sonda robótica em sua superfície, enviando imagens notáveis para a Terra.

O lado preocupante do papel cometas na evolução planetária foi demonstrado espetacularmente em 1994, quando o cometa Shoemaker-Levy-9 colidiu com Júpiter.

Com o aumento constante da poluição da luz no céu noturno, a observação de cometas a olho nu está se tornando muito mais rara. Por enquanto, no entanto, o Neowise apresenta uma oportunidade fantástica para milhões de pessoas verem um fenômeno do céu noturno que normalmente só se apresenta talvez uma vez em uma década ou mais. Aproveite a vista!

*Gareth Dorrian é da Universidade de Birmingham e Ian Whitaker da Universidade Nottingham Trent (NTU)


Este artigo foi republicado do site The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o original em inglês.


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