• Sandra Carvalho

O bom, o ruim e o imponderável da água doce no Brasil

Nenhum país tem tanta água doce como nós. Mas estamos estragando sua qualidade.


Rio Amazonas: a perda da floresta impacta | Foto: cc Neil Palmer/Ciat/Flickr

A água doce brasileira está sob pressão tripla: da agricultura, das cidades e da mineração. O impacto já pode ser sentido na qualidade da água, que piora, enquanto o consumo aumenta.


O bom dessa história é que o Brasil tem uma reserva de água doce extraordinária, a maior do mundo. O ruim é que as três forças que degradam a água não são exatamente evitáveis, embora possam ser muito melhor controladas.


Quem estudou o status da água doce no país foi um grupo de cientistas brasileiros e americanos liderados Kaline Mello, bióloga da Universidade de São Paulo, a USP. A pesquisa foi publicada no Journal of Environment Management.


Segundo os cientistas, o aumento do desflorestamento, a expansão das fronteiras agrícolas e a urbanização crescente no Brasil deixam claro que é preciso proteger a água para atender às necessidades atuais da população e para manter sua qualidade a longo prazo.


A pecuária e a agricultura ocupam hoje 28,8% do solo no Brasil, principalmente na Mata Atlântica (62%) e no Cerrado (42%).


Nas criações de gado, os animais compactam o solo dos pastos, o que dificulta a absorção da água, aumenta seu fluxo para os rios e riachos e junto leva mais poluentes para os corpos d'água.


Nas plantações, o solo recebe uma grande quantidade de substâncias poluidoras, como nitrogênio e fósforo.


"Vale lembrar que o Brasil é um dos maiores consumidores de fertilizantes e agrotóxicos do mundo, o que gera um grande impacto nas águas superficiais e subterrâneas", observou Kaline Mello à Agência Fapesp.


Tragédia de Brumadinho, com rompimento da barragem da mineradora Vale | Foto: cc Felipe Werneck/Ibama

Nas cidades, a degradação da água avança um pouco mais. Elas ocupam apenas 0,6% do solo do país, mas seu impacto poluidor é muito maior.


Com o asfalto e as áreas cobertas por cimento e concreto, a impermeabilização do solo faz a água correr direto para os rios e os córregos, carregando todas as impurezas do chão, inclusive metais pesados.


O esgoto não tratado é um problema ainda maior - leva matéria orgânica, coliformes fecais e poluentes para os rios. Ainda hoje, 48% da população não tem coleta de esgoto em casa, de acordo com os pesquisadores.


A mineração ocupa ainda menos espaço do solo no Brasil, mas o impacto é gigantesco, como mostraram os desastres humanos e ambientais de Mariana e Brumadinho.


Segundo o estudo, o rompimento da barragem da mineradora Samarco em Mariana poluiu 650 quilômetros do rio Doce, afetando 1 milhão de pessoas da região.


O rompimento da barragem da mineradora Vale em Brumadinho, por sua vez, elevou os níveis de chumbo no rio Paraopeba 21 vezes acima do aceitável, nota o estudo.


O que vai acontecer com a reserva de água doce brasileira no futuro depende muito do que for feito agora e nos próximos anos.


"As estimativas que temos indicam uma severa degradação da qualidade da água caso os problemas de desmatamento e saneamento básico não melhorem", advertiu Kaline de Mello.


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