• Sandra Carvalho

O Brasil chega a 2021 sem vacina e sem pressa

Tirando as crianças e adolescentes, o país tem 163 milhões de pessoas para vacinar.


Vacina da Pfizer/BioNTech: adoção veloz pelo mundo | Foto: cc Lisa Ferdinando/Departamento de Defesa dos EUA

Com 7, 4 milhões de casos de Covid-19 e 190 mil mortos para chorar, o Brasil é um dos países do mundo que mais precisa de vacinas para vencer a pandemia. Só os americanos enterraram mais vítimas do novo coronavírus que nós até agora. Mas o Brasil está quase na estaca zero nesse departamento.


Se começasse a vacinar os 163 milhões brasileiros adultos, de 18 anos ou mais, no dia 1º de janeiro, o Brasil teria que imunizar 447 mil pessoas por dia, todos os dias do ano, para dar cabo da tarefa ainda em 2021. Mas como sabemos, a data da vacinação ainda não tem data para começar no Ministério da Saúde.


Mais: não há uma única vacina contra Covid-19 autorizada pela Anvisa nem para uso emergencial.


Enquanto o governo federal se enrola em negociações em torno da vacina Pfizer/BioNTech, que tem taxa de eficácia de 95%, a melhor de todas, pelo menos outros 14 países já compraram essa vacina, receberam e começaram a imunizar sua população.


Pfizer no braço


Os países que já aplicam a vacina Pfizer/BioNTech: Estados Unidos, Canadá, Reino Unido, Suíça, Hungria, Sérvia, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Catar, Israel, México, Costa Rica e Chile. Na União Europeia, o Dia V é amanhã, domingo (a Hungria furou o cronograma).


Inconclusivo com a Pfizer, o Ministério da Saúde parece ainda mais distante da vacina da startup americana Moderna, que também ostenta uma taxa de eficácia espetacular, de 94,1%.


Baseadas em RNA mensageiro, as vacinas da Pfizer/BioNTech e da Moderna inauguraram uma nova era da imunização, com performance bem superior à das vacinas mais tradicionais.


O único contrato de compra efetiva de vacina contra Covid-19 que o Ministério da Saúde tem na mão, até agora, é o da AstraZeneca/Oxford. Infelizmente, a fase 3 dos ensaios clínicos dessa vacina não foi tão conclusiva quanto poderia.


Há dúvidas, por exemplo, sobre um dado elementar: a taxa de eficácia é de 62%, como indica o grupo maior dos testes da vacina, ou de 90%, como sugere um grupo bem menor, que em vez de tomar duas doses inteiras do imunizante tomou apenas meia dose por equívoco da primeira vez?


Meia dose ou dose inteira?


A Fiocruz, que testou a vacina no Brasil com duas doses inteiras, e vai fabricar a vacina por aqui, vai aconselhar qual dosagem? A fundação prevê o início da entrega da vacina em 8 de fevereiro.


A AstraZeneca está inclusive evitando pedir autorização para uso emergencial ou registro para órgãos reguladores mais exigentes no momento, à espera de novos estudos mais esclarecedores sobre eficácia.


Há uma vacina mais à mão: é a CoronaVac, desenvolvida pela empresa chinesa privada Sinovac e testada e fabricada no Brasil pelo Instituto Butantan. Apesar de negociar e renegociar a CoronaVac há meses, o Ministério não assinou contrato com o instituto até agora.


Pior: a própria vacina está envolvida no momento em controvérsia, e envolta em mistério. Não se sabe sua taxa de eficácia no Brasil - sabe-se apenas que atingiu o limiar de eficácia aceito pela Organização Mundial da Saúde e pela Anvisa (50%) e que não chegou a 90%.


Na Turquia, análises preliminares da fase 3 dos testes clínicos da vacina junto a um grupo muito pequeno de usuários (1.322 pessoas) indicaram uma eficácia de 91,25%.


Na dependência da Sinovac


Sem dados brasileiros públicos, a CoronaVac está empacada em termos de uso: o Butantan não pode pedir nem autorização para uso emergencial nem registro definitivo para Anvisa. E sem OK da Anvisa, nada de vacinação.


A nova data prometida para divulgação dos dados de eficácia é 7 de janeiro, e ela depende substancialmente da Sinovac.


Com essas incertezas e a lentidão no fechamento dos contratos, o Brasil pode deixar de considerar imediatamente as outras opções de vacinas disponíveis ou em fase final de desenvolvimento, algumas das quais inclusive já são negociadas diretamente pelos estados?


Em outubro, o Ministério da Saúde afirmou manter entendimentos em torno de nove iniciativas para o Programa Nacional de Imunização.


Além das vacinas da AstraZeneca/Oxford, CoronaVac e Pfizer/BiONTech, foram citadas a russa Sputnik 5, as chinesas da empresa estatal Sinopharm, a belga Janssen, da J&J, a americana Novavax e as vacinas alemãs da Merck, ainda numa fase mais inicial de desenvolvimento.


Nenhuma dessas tratativas, com exceção da AstraZeneca/Oxford, desembocou ainda num contrato. Por sorte, há a iniciativa da OMS, a Covax Facility, que vai garantir pelo 42,5 milhões de dores de vacinas (o Brasil fez opção pela cobertura mínima, de 10% da população, apesar de poder optar até 50%).


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