• Sandra Carvalho

O mundo surpreendente das novas plantas

Só em 2019 foram identificadas 1.942 espécies (no Brasil mais do em qualquer outro país).


Uma nova espécie de campânula-brancadescoberta na Turquia, descoberta por foto no Facebook | Foto: D. Zubov/RBG Kew

Há dez anos, cientistas acharam que a imensa maioria das plantas existentes tinham sido identificadas, nomeadas e catalogadas.


O que se descobriu de plantas desconhecidas nos anos seguintes jogou por terra a suposição.


Só um exemplo: entre 2014 e 2019, uma média de 60 novas espécies de begônia foram registradas por ano.


O ano passado ficou abaixo da média - mas foram 46 novas espécies da planta, descritas sobretudo no Sudeste da Ásia. Em março desde ano, já eram 1.963 espécies de begônia. Devem passar de 2.000 até o final de dezembro.


Os números são relatório Estado das Plantas e Fungos no Mundo, do Kew Gardens, na Inglaterra, que mobilizou 210 cientistas de 42 países para fazer o levantamento.


Nos resultados, um dado sombrio: duas em cada 5 espécies de plantas estão ameaçadas atualmente.


Hoje, com cerca de 350 mil espécies de plantas conhecidas pela Ciência, milhares de novas espécies continuam a engrossar os índices de botânica todos os anos.


É uma corrida que muitos profissionais fazem com sentido de urgência: ninguém consegue proteger o que não conhece.


Com o desmatamento e a degradação de florestas, mais a mudança de clima, as plantas estão sob constante ameaça - quase 40% das espécies correm risco de extinção.


"Estamos arriscando perdê-las antes mesmo de encontrá-las e descobrir que possíveis benefícios podem nos trazer", comentou o botânico brasileiro Alexandre Antonelli, diretor científico do Kew Gardens, à Pesquisa Fapesp.


Entre 1990 e 2018, três países descreveram mais que todos as novas espécies: em primeiro lugar o Brasil, depois a China e a Austrália.


Em 2019, a Austrália cedeu o lugar para a Colômbia e o Equador. O Brasil continuou em primeiro lugar, com 216 novas espécies descritas. Desde 2008, nenhum país bate o Brasil nesse campo.


Nova espécie do gênero Synsepalum, de Moçambique, já ameaçada por desmatamento | Foto: Bart Wursten/RBG Kew

Muitas das espécies novas podem se transformar em bebida ou comida. Só de Camellia, o gênero do chá, foram identificadas 30 espécies na China e países próximos no ano passado. De Allium, o gênero que inclui alho e cebola, foram encontradas seis espécies na Turquia.


No Brasil, entre as espécies comestíveis, em 2019 foram identificadas duas espécies de mandioca selvagem (Manihot esculenta) , e parentes de batata-doce e inhame.


As espécies de mandioca foram consideradas descobertas importantes, para salvaguardar as futuras plantações - 800 milhões de pessoas têm na mandioca seu alimento principal.


Genes das novas espécies podem ajudar a desenvolver um tipo de mandioca resistente a pragas ou mais flexível em termos de solo ou de chuva.


As novas plantas também podem se tornar matéria-prima de remédios importantes. A espécie Artemisia baxoienses, descoberta no ano passado no Tibet, é parente próxima da Artemisia annua, usada para tratamento contra a malária.


A espécie Eryngium arenosum, encontrada no Texas, Estados Unidos, no ano passado, pertence a um gênero de plantas usadas para tratar inflações, muito açúcar no sangue e mordidas de escorpiões.


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