• Sandra Carvalho

O que move a usina ultra-fast fashion Shein

Muita tecnologia, preços no chão e jornadas de trabalho chocantes estão por trás da marca.


Shein no Facebook
Shein: moda rápida e barata com dados e jornadas de 75 horas | Imagem: Panos Pictures/Private Eyes

Se você pensa em fast fashion, pode pensar em Zara, C&A, H&M. Mas para a geração TikTok um outro nome surge em primeiro lugar. É #Shein, um gigante chinês de 20 bilhões de dólares de vendas de roupas descartáveis por ano.


O que está por trás do sucesso comercial da Shein, das suas roupas que seguem as últimas tendências da moda, arrebatam as adolescentes e são vendidas a preço de banana? A empresa é a maior vendedora de moda online do mundo, segundo o Euromonitor.


A organização suíça Private Eye foi atrás dessa fórmula, na cidade de Guangzhou, na China, onde fica a sede da Shein. Os pesquisadores encontraram mil empresas da região que fabricam roupas para a Shein, entre as quais numerosas vivendo na informalidade.


Segundo a Private Eye, as pessoas que produzem as roupas da Shein trabalham entre 11 e 12 horas por dia, com uma única folga por mês - o que dá uma semana de 75 horas (para comparação, no Brasil a jornada oficial é de 44 horas).


As 75 horas por semana violam as leis trabalhistas chinesas e também o código de conduta que a Shein estipula para seus fornecedores.


Fornecedor da Shein na região de Guangzhou
Fornecedor da Shein na região de Guangzhou: jornadas excruciantes | Foto: Panos Pictures /Private Eye

Quem se mata de trabalhar, como se fizesse duas jornadas todos os dias, ganha no máximo 10 mil yuans - o que os suícos acham uma mixaria, mas em moeda brasileira, que não está valendo nada, dá 8.860 reais mensais.


A Private Eye foi também a Liège, na Bélgica, onde cerca de 30 mil devoluções da Shein eram processadas diariamente até recentemente (agora as roupas voltam direto para a China).


A principal queixa dos funcionários da Shein em Liège era de ter de alcançar metas inatingíveis para receber o salário mínimo de 12,63 euros por hora.


A Private Eye examinou também a estrutura corporativa da Shein e encontrou várias empresas offshore disfarçadas para evitar impostos.


Segundo o site da própria Shein, a empresa vende suas roupas em 150 países e territórios no mundo. Seu mote: "Todos podem desfrutar da beleza da moda". A beleza da moda muda a toda hora, segundo a Shein: 3 mil modelos são incorporados a seu catálogo por semana.


As origens da Shein estão na cidade de Nanjing, na China, numa empresa que vendia vestidos de noiva. Entre os fundadores, estava Xu Yangtian, especializado em otimização de motores de busca.


Em 2012, Xu Yangtian começou a distribuir roupas femininas com a marca Shein (She Inside). Em três anos, o negócio já havia decolado. Em 2017, ele mudou sua base para Guangzhou.


Uma dos pontos fortes da Shein é levar a sério o que acontece no mundo online, a começar pelas tendências de moda. As vendas das roupas e a movimentação dentro dos apps dos consumidores são analisadas automaticamente, na hora.


A produção é criada em pequenos lotes, de cerca de 100 peças, de forma que só as que ganham as graças dos consumidores são produzidas em larga escala. Os algoritmos e os dados das novas tendências ditam os rumos da fabricação.


As queixas que os consumidores fazem da empresa também são monitoradas de perto. Veja o caso do Brasil. No Brasil, a Shein recebeu até hoje 16.674 críticas dos consumidores no site Reclame Aqui. Respondeu 99,3% delas, conseguindo a classificação de bom.


Os fornecedores da Shein estão na maioria bem perto de Guangzhou. São principalmente pequenas empresas, que se ligam à Shein pelo software da cadeia de suprimentos da empresa e recebem suas ordens automaticamente.


Com tudo isso, o ciclo de produção da Shein se reduz a aproximadamente uma semana, do design ao empacotamento, segundo a Private Eye. Para comparação, o ciclo da Zara, que praticamente fundou a indústria de fast fashion, vai de três a quatro semanas.


Com essa rapidez, e seus preços de arrasar, a Shein levou o consumismo a um nível ainda mais exacerbado do que rivais como a Zara e a C&A tinham elevado com sua fast fashion.


As pesquisas apontam que 62 milhões de toneladas métricas de roupas já eram consumidas por ano em 2019 no mundo - e 57% delas descartadas e transportadas para aterros de lixo e incineradas mais cedo ou mais tarde.


Com a contribuição da Shein, o impacto da fast fashion no meio ambiente se tornou ainda maior.


Shein no Facebook: moda, tecnologia e um lado obscuro  |  Imagem: reprodução de Shein no Facebook
Shein no Facebook: moda, tecnologia e um lado obscuro | Imagem: reprodução de Shein no Facebook

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