• Sandra Carvalho

O trabalho liberta? Slogan nazista ressuscita volta e meia

Uma campanha do governo Bolsonaro sobre coronavírus é a última reencarnação.


Portão de entrada do campo de concentração de Auschwitz, na Polônia | Foto: cc Marcin Bialek/Wikimedia Commons

O slogan nazista Arbeit Macht Frei - "o trabalho liberta" - é conhecido no mundo todo - ficava na entrada de campos de concentração alemães durante a 2ª Guerra Mundial. De tempos em tempos, volta a assombrar a humanidade com seu espectro de horrores.


A expressão foi criada num romance alemão do século 19, do filólogo e lexicógrafo Lorenz Diefenach, numa história de superação de pequenos criminosos que saem da lama através do trabalho. Título: Arbeit macht frei: Erzählung. O livro está à venda na Amazon, editado pela Forgotten Books.


Os nazistas alemães já usavam o slogan no início nos 30 em campanhas contra o desemprego. A ideia de colocar a expressão nos portões de entrada dos campos de concentração foi do general da SS Theodor Eicke, um dos criadores do sistema.


O slogan Arbeit Macht Frei marcava a entrada dos campos de Auschwitz e Gross-Rosen (hoje Polônia), Dachau e Sachsenhausen (Alemanha) e gueto/campo de concentração de Theresienstadt (hoje República Tcheca).


De lá para cá, quem usa o slogan ou parafraseia provoca uma tempestade de protestos. Que o diga o presidente mundial da Volkswagen, o alemão Herbert Diess. No ano passado, numa reunião com executivos da companhia, ele usou a frase "Ebit macht frei".


Literalmente, a frase dizia que o lucro liberta. (Ebit, em inglês, significa lucro antes de juros e impostos). No dia seguinte, teve de pedir desculpas no LinkedIn, afirmando que não tinha se lembrado de Arbeit Macht Frei.


Já na pandemia do novo coronavírus, o slogan Arbeit Macht Frei resssuscitou, em alemão mesmo, numa manifestação negacionista contra o lockdown em Chicago, fazendo referência direta ao governador de Illinois, JB Pritzker, de ascendência judaica.


O Museu de Auschwitz não engoliu o uso da expressão e reagiu: "Essas palavras se tornaram um dos ícones do ódio humano. É penoso ver esse símbolo instrumentalizado e usado de novo para espalhar ódio. É um sintoma de degeneração moral e intelectual".


No Brasil, o slogan inspirou uma frase de campanha do governo Bolsonaro contra o isolamento social durante a pandemia de coronavírus. A frase polêmica: "O trabalho, a união e a verdade nos libertará."


Fabio Wajngarten, o chefe da Secom, a secretaria de comunicação do governo, responsável pela campanha, negou associação ao nazismo, dizendo ser judeu. Como era de se esperar, nem por isso a poeira baixou.


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