• Sandra Carvalho

Peixe criado em fazendas tem menos nutrientes, como mostra o caso de Bangladesh

O consumo de peixe aumentou 30% no país, mas o potencial nutritivo não.

Bangladesh: maior consumo de peixes, mas menos nutrientes | Foto: Balaram Mahalder

Peixe é praticamente sinônimo de boa nutrição, certo? Em termos. Se o peixe é criado em fazendas, provavelmente não vai dar show em nutrientes. Detalhe: metade do peixe que se come no mundo vem dessas fazendas atualmente.


Em Bangladesh, a população come 30% mais peixe hoje do que vinte anos atrás. Mas em vez de receber mais nutrientes com esse aumento, recebe menos.


Ferro e cálcio vindos de peixe diminuíram. A quantidade de zinco, vitamina A e vitamina B12 ficou na mesma, apesar do aumento do consumo.


Isso foi demonstrado por um estudo de cientistas da Austrália, Bangladesh e Estados Unidos publicado em abril no jornal PLOS One.


Eles acompanharam o consumo de peixe no país de 1991 a 2010. Nesse período, a ingestão de peixe natural caiu 33% , mas foi compensada por um salto no uso de peixe de fazendas.


A queda de nutrientes no peixe consumido em Bangladesh se explica por essa mudança nas fontes de consumo. Lá, como em quase todo o mundo, a pesca natural está diminuindo.


"A combinação de pesca excessiva, poluição e danos ambientais levou a uma perda significativa tanto da quantidade de peixes quanto da sua diversidade", observou Jessica Bogard, nutricionista especializada em saúde pública, da Universidade de Queensland (UQ) , uma das autoras do estudo, num artigo em The Conversation.


Disparada da aquicultura


No mundo, a pesca natural chegou a seu pico nos anos 90. À medida que os estoques naturais se esgotam, crescem as fazendas de criação de peixe, a aquicultura.


Assim, o suprimento de peixes saltou de uma média global de 9,9 quilos por pessoa em 1960 para 20,1 quilos per capita por ano em 2014, mostrou o estudo.


A aquicultura é muito eficiente para produzir grandes quantidades de peixes. Num país como Bangladesh, em que 36% das crianças até cinco anos são atrofiadas por falta de alimentos, isso é, e deve ser, muito levado em consideração.


Em Bangladesh, essas fazendas surgiram nos anos 80 e se expandiram vigorosamente. De 1990 a 2013, sua produção cresceu 810%, de acordo com a pesquisa. Bangladesh se tornou o sexto maior produtor do mundo de produtos de aquicultura.


A pesca natural em Bangladesh é caracterizada por cerca de 300 espécies de pequenos peixes nativos. As fazendas de peixes cultivam meia dúzia de espécies maiores, tanto nativas quanto exóticas, conforme levantaram os cientistas.


Nessa substituição da pesca natural pelas fazendas de peixes, os nutrientes se perderam, e agravaram os problemas enormes de malnutrição do país.


Os cientistas não propõem o fim da aquicultura, é claro, mas que as fazendas de peixe considerem também o aspecto nutritivo do peixe que criam, em vez de focar apenas na maximização da produtividade.


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