• Sandra Carvalho

Peixe pode transmitir coronavírus?

Os rumores começaram em Pequim, na segunda onda da pandemia na cidade.


Salmão: provisoriamente sob suspeita, mas depois absolvido do surto de Covid-19 em Pequim | Foto: cc0 Giovanna Gomes/Unsplash

Até hoje, não existe qualquer evidência de que alguém possa pegar Covid-19 através de comida ou bebida. Mas nas últimas duas semanas os rumores de que a doença possa ser transmitida por peixe entraram em alta voltagem.


O problema começou no dia 11 de junho, com um caso local da infecção em Pequim, depois de 56 dias sem qualquer caso novo da pandemia.


Bastaram mais dois doentes em 24 horas para localizar a origem de um novo surto no mercado de alimentos Xinfadi de Pequim, um dos maiores da Ásia.


O mercado abastece 70% dos legumes e verduras consumidos na cidade, vende carne e peixe, mas não animais selvagens.


Foram encontradas tábuas de corte de salmão importado contaminadas no mercado. Em horas, as grandes redes de supermercado retiraram o salmão de suas prateleiras. Os restaurantes riscaram o peixe de seus cardápios.


Um epidemiologista prestigiado, Zeng Guang, aconselhou os consumidores a ficar longe de salmão cru.


A China importa cerca de 80 mil toneladas de salmão resfriado e congelado por ano, de países como Noruega, Chile, Austrália e Canadá. As importações do produto foram suspensas.


Salmão na China | Imagem: reprodução de vídeo da China News Service/YouTube

Em meio ao susto dos primeiros dias do novo surto, o governo chinês pode ter dado a impressão que o problema poderia estar no salmão. Mas os fatos se encarregaram de abalar a hipótese.


No dia 15, Wu Zunyou, o epidemiologista chefe-do CDC, o centro de controle e prevenção de doenças da China, já esclarecia que peixes em seu habitat natural não pegam coronavírus.


Ele disse também que os peixes podem ser contaminados por pessoas com Covid-19 durante a captura e transporte. Mas já alertou que concluir que o salmão era a fonte do surto de Pequim por causa das tábuas de corte com SARS-CoV-2 seria precipitado.


Amostras de outras seções do mercado também deram positivo para o novo coronavírus, diversificando as suspeitas sobre a origem do surto.


Nas investigações, viu-se que vendedores de peixe foram mais infectados pelo novo coronavírus que vendedores de outros produtos, como carne de vaca e de carneiro, e que exibiram sintomas antes que eles.


Como explicar isso? Segundo Wu, uma razão possível seria o ambiente muito frio e úmido da seção de peixes do mercado, que pode ter contribuído para preservar o vírus.


Mercado Xinfadi: ponto inicial do novo surto em Pequim | Foto: cc N509FZ/Wikimedia Commons

Os peixes passaram ilesos pelos testes sanitários antes de entrar em Pequim - o que reforça a possibilidade de contaminação do mercado por outras fontes.


Depois que o novo coronavírus reemergiu na cidade, a alfândega chinesa testou 47.812 amostras de peixe e frutos do mar, carne, legumes, verduras e frutas, embalagens e câmaras frigoríficas de alimentos importados, de acordo com a agência Bloomberg. Não achou coronavírus.


No dia 18, Shi Guoqing, vice-diretor do centro de respostas de emergência do CDC, já aliviava a situação do salmão, dizendo não havia qualquer evidência que o salmão era o hospedeiro ou mesmo hospedeiro intermediário do vírus.


O virologista Cheng Dong, da Universidade Tsinghua, tinha dado sua explicação sobre o assunto dias antes, lembrando que um vírus precisa de um receptor viral na superfície das células que invade para ter sucesso.


"Todas as evidências até agora sugerem que esses receptores existem apenas em mamíferos, não em peixes", ele declarou à CGTN, rede estatal chinesa de televisão.


Um estudo da universidade College London (UCL), de fato, afirmou em maio que o novo coronavírus poderia infectar uma ampla gama de mamíferos, mas não peixes, pássaros ou répteis.


Mas como para abalar as certezas de que comer peixe é 100% livre de risco, os autores do estudo revisaram essa afirmação absoluta recentemente, numa nova versão do estudo.


Agora eles preferem dizer que o SARS-CoV-2 pode infectar muitos mamíferos, mas poucos peixes, pássaros ou répteis.


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