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Peixe-zebra transgênico já vive em riachos mineiros

Mais de uma centena da versão fluorescente do peixe foi capturada em Minas.


Larvas de peixes-zebras
Larva de peixe-zebra transgênico com vasos sanguíneos em vermelho e verde | Foto: Daniel Castranova/Laboratório Weinstein/NICHD/NIH/Flickr

Apreciado por colecionadores de peixes ornamentais e usado como organismo modelo em pesquisas científicas, o peixe-zebra (Danio rerio) é uma espécie de água doce originária da Ásia.


No Brasil, é conhecido como paulistinha devido a suas listras longitudinais de tom azul escuro e prateado que lembrariam a bandeira do estado de São Paulo.


Empresas no exterior vendem uma versão transgênica do peixe dotada de genes de anêmonas e de medusas que o tornam fluorescente nas cores verde, vermelha, laranja e azul. Essa variante é um sucesso comercial.


Embora sua importação seja proibida no Brasil desde 2008, o peixe-zebra modificado pode ser encontrado em aquários de particulares e, segundo um estudo recente, até em riachos nacionais.

Um trabalho publicado em fevereiro deste ano na revista científica Studies on tropical Fauna and Environment relata que mais de uma centena de exemplares desses peixes foi encontrada em riachos das sub-bacias dos rios Glória e Muriaé, afluentes mineiros da bacia do rio Paraíba do Sul.


Pesquisadores das universidades federais de São João del-Rei (#UFSJ), de Minas Gerais, e de Segipe (#UFS) fizeram coletas de campo em cinco riachos nos municípios de Vieiras e Muriaé em 2015, 2017 e 2018.


Os paulistinhas fluorescentes foram capturados em dois córregos, Lopes e Queiroga, que ficam perto dos municípios de Vieiras e Glória.

“É uma descoberta preocupante”, diz o ecólogo André Magalhães, da UFSJ, principal autor do estudo. “Não sabemos ao certo que efeitos a alimentação e a proliferação desse peixe transgênico podem provocar na fauna nativa.”


Na região mineira, o paulistinha não tem predadores naturais onde foi encontrado e há alimentos de sua preferência em abundância, como insetos aquáticos e zooplâncton.


Ao longo do ano, a temperatura das águas dos riachos se mantém relativamente constante, entre 24 °C e 30 °C, característica que favorece a reprodução da espécie em todas as estações.

Magalhães e seus colegas temem que peixes nativos, como o lambari do rio (Deuterodon janeiroensis), que tem hábitos alimentares semelhantes, possam ficar em desvantagem se tiverem de competir por comida com o paulistinha transgênico.


“Se vier a ocorrer a extinção do lambari ou de qualquer espécie local, quebra-se um elo da cadeia alimentar desse ecossistema, o que pode desequilibrar toda a vida do riacho”, comenta o ecólogo.


De acordo com o pesquisador, o peixe-zebra transgênico ainda não pode ser considerado uma espécie invasora da bacia, mas pode vir a ser se nada for feito. A variante fluorescente parece adaptar-se sem problemas aos riachos.

Nos arredores dos cursos d’água em que foram capturados os paulistinhas, há um importante polo de piscicultura ornamental, em Muriaé, na Zona da Mata mineira.


Ali o paulistinha selvagem, cuja importação é legal, é cultivado em tanques que, muitas vezes, têm ligações com os riachos. As duas versões, a comum e a transgênica, especialmente a variedade esverdeada, são muito parecidas.


A cor brilhante da versão modificada torna-se mais visível quando o peixe é exposto à luz ultravioleta. Por isso, os pesquisadores suspeitam que exemplares esmeraldinos tenham sido importados e, posteriormente, criados em cativeiro misturados à espécie selvagem.

Isso estaria ocorrendo sem que os próprios criadores de paulistinha tenham se dado conta da possível mescla em seus tanques de reprodução.


Segundo o estudo, alguns peixes transgênicos podem ter escapado dos criadouros e chegado aos riachos, onde se reproduziram. Essa fuga pode ter ocorrido no momento de esvaziamento de algum tanque, que nem sempre tem métodos de contenção.


“Recomendamos usar telas de nylon nos canos de descarga que desembocam nos rios”, diz Magalhães. ✔︎

Esse texto, de Meghie Rodrigues, foi republicado da Pesquisa Fapesp de acordo com uma licença Creative Commons. Leia a versão integral aqui.