• Sandra Carvalho

Poluição farmacêutica já tomou rios no mundo inteiro

A única exceção é a Islândia, onde cientistas não encontraram qualquer droga pesquisada.


rio Nam Khan de Luan Prabang
Rio Tak, em Hong Kong: em suas águas, 34 diferentes tipos de IFA | Foto: John Wilkinson/Universidade de York

As pegadas farmacêuticas já alcançaram rios de todo o globo, dos países mais ricos da Europa à África subsaariana.


Um estudo monstro da poluição dos ingredientes farmacêuticos ativos (#IFA) em 258 rios de 104 países, onde vivem 471 milhões de pessoas, mostrou que a poluição da água é universal. Ou quase: a Islândia, por enquanto, escapou dessa contaminação.


Cientistas da Universidade de York (#UniversidadedeYork) examinaram amostras de água dos 104 países em busca de 61 diferentes ingredientes farmacêuticos ativos. As análises foram feitas em seu centro de espectrometria de massa.


Sua principal conclusão: IFA poluidor ameaça o ambiente e a saúde das pessoas em mais de 25,7%% dos lugares estudados.


Para coletar a água dos rios e analisar seu conteúdo, o estudo mobilizou 127 colaboradores de 86 diferentes instituições pelo mundo. Do Brasil, são citados a Faculdade de Saúde Pública da USP e o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte (#IFRN).


A droga mais encontrada pelos pesquisadores foi a carbamazepina, usada para tratar epilepsia, nevralgia e distúrbio bipolar - está presente, por exemplo, no remédio Tegretol. A carbamazepina foi identificada em 61% dos locais monitorados.


Dois outros tipos de IFA foram encontrados em mais de metade das amostradas analisadas: a metformina, empregada no tratamento de diabetes tipo 2, e a cafeína, encontrada tanto em medicamentos quanto em bebidas populares como cafezinho e refrigerantes. A cafeína foi detectada nos 7 continentes.


O rio recordista de IFA foi o Kai Tak, de Hong Kong, onde foram encontrados 34 diferentes ingredientes farmacêuticos, mais do que em qualquer outro rio já estudado.


A maior concentração de droga detectada foi do analgésico e antipirético paracetamol, presente por exemplo no Tylenol, de 227 µg/l (microgramas por litro), na Bolívia.


Na Bolívia se coletou também a amostra mais poluída do mundo, no rio Seke, de La Paz. Considerando todo tipo de IFA, a concentração de drogas foi de 297 µg/l, 115 vezes maior do que a do rio East, da cidade de Nova York.


De fato, as amostras mais contaminadas do estudo vieram dos países de renda baixa a média, com problemas generalizados de saneamento básico e de esgoto sem tratamento de fábricas de medicamentos.


As regiões do mundo mais propensas a essas contaminações estão na África subsaariana, sul da Ásia e América do Sul, segundo os pesquisadores.


As menores concentrações de IFA foram constatadas em quatro tipos de lugares:

1) áreas com pouca presença humana, como a parte alpina das Montanhas Rochosas nos Estados Unidos;

2) áreas com uso limitado de medicina moderna, com uma vila remota do povo yanomami na Venezuela;

3) áreas com infraestrutura sofisticada de tratatamento de água, como Basileia, na Suíça, e

4) rios com fluxos fluviais altos com um grande componente diluidor (por exemplo, o rio Amazonas a jusante de Manaus, e o rio Mekong em Luang Prabang, Laos).


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