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Por que algumas pessoas não admitem derrota?

Texto de Evita March, professora de Psicologia da Federation University da Austrália.


Donald Trump
Donald Trump: negação de derrota explicada pela Psicologia | Imagem: cc0 M. H./Pixabay

Quando o presidente eleito dos EUA, Joe Biden, e a vice-presidente eleita, Kamala Harris, fizeram seus discursos de vitória na noite de sábado, a contagem dos votos do Colégio Eleitoral mostrou que eles haviam ultrapassado de forma decisiva o limite crucial de 270 votos, garantindo para eles a Casa Branca a partir de 20 de janeiro.


A tradição dita que o candidato derrotado também faça seu próprio discurso para admitir a derrota. O oponente que Biden e Kamala venceram, Donald Trump, não fez isso.


Não podemos psicanalisar Trump à distância, embora tenha certeza de que muitos de nós tentamos. Podemos, no entanto, aplicar teorias e modelos psicológicos para compreender a negação da derrota.


Minha área de pesquisa - psicologia da personalidade - pode ser particularmente útil aqui.


A relutância em admitir a derrota, mesmo quando a batalha está irremediavelmente perdida, é um fenômeno surpreendentemente pouco estudado.


Mas há algumas pesquisas que podem ajudar a compreender por que algumas pessoas, especialmente aquelas que exibem uma característica chamada “narcisismo grandioso”, podem ter dificuldade em aceitar a derrota.


Simplificando, essas pessoas podem ser incapazes de aceitar, ou mesmo compreender, que não venceram.


Outras teorias psicológicas, como a dissonância cognitiva (resultante da discrepância entre o que acreditamos e o que acontece) também podem ajudar a explicar por que reforçamos nossas crenças diante de evidências contrastantes esmagadoras.


Se você pensa que é melhor do que todos, o que perder significa?

Traços de personalidade podem fornecer informações sobre por que alguém não está disposto a aceitar uma derrota.

O narcisismo é um desses traços. Evidências sugerem que existem duas formas principais de narcisismo: narcisismo grandioso e narcisismo vulnerável.

Neste artigo, vamos nos concentrar no narcisismo grandioso, já que as características desse traço parecem mais relevantes para a negação subsequente da derrota.


Pessoas que mostram características de narcisismo grandioso tendem a exibir mania de grandeza, agressão e domínio sobre os outros.


De acordo com pesquisadores da Universidade Estadual da Pensilvânia, em publicação do Journal of Personality Disorders, este tipo de narcisismo está associado a "autopromoção aberta, negação de fraquezas, demandas intimidantes de supostos direitos ... e desvalorização de pessoas que ameaçam a autoestima".

O narcisista grandioso é competitivo, dominante e tem uma autoimagem positiva inflada a respeito de suas próprias habilidades, aptidões e atributos. Além do mais, os narcisistas grandiosos tendem a ter uma autoestima mais elevada e um senso de valor inflado.

Para o narcisista grandioso, a derrota pode comprometer sua autoestima inflada. De acordo com pesquisadores de Israel, essas pessoas consideram os reveses em desempenho particularmente ameaçadores, pois esses reveses podem indicar um “fracasso em acompanhar a concorrência”. Em vez de aceitar a responsabilidade pessoal pelo fracasso e derrota, esses indivíduos externalizam a culpa, atribuindo contratempos e fracassos pessoais às deficiências dos outros. Eles não reconhecem, ou mesmo não podem reconhecer e admitir que o fracasso pode ser deles.

Com base no perfil do narcisista grandioso, a incapacidade de aceitar a derrota pode ser melhor caracterizada por uma tentativa de proteger a autoimagem grandiosa e positiva.


Seu domínio sobre os outros, a negação de fraquezas e a tendência de desvalorizar as pessoas resultam em uma falta de compreensão de que é possível que percam.

Por que algumas pessoas apostam na negação apesar das evidências em contrário?

Na década de 1950, o renomado psicólogo Leon Festinger publicou When Prophecy Fails (Quando a Profecia Falha) , documentando as ações de uma seita chamada The Seekers, que acreditava em um apocalipse iminente em uma data definida.

Depois do dia em que o apocalipse não ocorreu, os Seekers não questionaram suas crenças. Em vez disso, eles forneceram explicações alternativas - reforçando suas ideias. Para explicar essa negação fortalecida em face das evidências, Festinger propôs dissonância cognitiva.

A dissonância cognitiva ocorre quando encontramos eventos que são inconsistentes com nossas atitudes, crenças e comportamento. Essa dissonância é desconfortável, pois desafia o que acreditamos ser verdade.


Para reduzir esse desconforto, adotamos estratégias como ignorar novas evidências e justificar nosso comportamento.

Aqui está um exemplo de dissonância e estratégias de redução.

Luísa acredita que é uma excelente jogadora de xadrez. Convida uma nova amiga, que mal conhece xadrez, para jogar uma partida com ela.


Mas a vitória fácil esperada por Luísa não acontece. Sua nova amiga mostra um jogo muito desafiador e Luísa acaba perdendo.


Essa perda é uma evidência que contradiz a crença de Luísa de que ela é uma excelente jogadora de xadrez. No entanto, para evitar desafiar essa crença, Luísa diz a si mesma que sua nova amiga teve sorte de iniciante e que ela mesma estava apenas tendo um dia ruim.

Alguns pesquisadores acham que experimentar a dissonância tem um propósito adaptativo, pois nossas estratégias para superar a dissonância nos ajudam a navegar em um mundo incerto e reduzir o sofrimento.

No entanto, as estratégias que usamos para reduzir a dissonância também podem nos tornar inflexíveis em nossas crenças.


A contínua aceitação rígida de nossas crenças pode nos tornar incapazes de aceitar os resultados, mesmo em face de evidências contundentes.

Vamos considerar como o narcisismo grandioso pode interagir com a dissonância cognitiva em face da derrota.

O narcisista grandioso tem uma autoimagem positiva inflada. Diante de evidências contrárias, como derrota ou fracasso, o narcisista grandioso provavelmente experimentará dissonância cognitiva.


Na tentativa de diminuir o desconforto dessa dissonância, o narcisista grandioso redireciona e externaliza a culpa. Essa estratégia de redução da dissonância permite que a autoimagem dos grandiosos narcisistas permaneça intacta.

Finalmente, o ato de não se desculpar por seu comportamento também pode ser uma estratégia de dissonância.


Um estudo realizado por pesquisadores na Austrália indicou que a recusa em se desculpar depois de fazer algo errado permite ao perpetrador manter sua autoestima intacta.

Pode ser seguro dizer que, se a negação de Donald Trump da derrota eleitoral for um produto de narcisismo grandioso e dissonância, não prenda a respiração esperando por um pedido de desculpa, e muito menos por um discurso elegante reconhecendo a vitória democrata.


☛ Este artigo foi republicado do site The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o original em inglês.


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