• Sandra Carvalho

Pulmões humanos se regeneram plugados a porcos

Cientistas recuperam pulmões usando circulação cruzada com os animais.


Pulmões humanos: recebendo uma mãozinha do porcos Yorkshire | Vídeo: Ahmed Hozain e John Neill/Colúmbia

Uma parte da humanidade já reverencia os porcos porque é deles que se faz o bacon. Uma outra parte talvez se junte ao grupo por uma razão mais nobre: os porcos podem ajudar os médicos a salvar pulmões humanos arruinados.


Cientistas das universidades de Colúmbia, em Nova York, e Vanderbilt, em Nashville, mostraram por a + b como a circulação cruzada com os porcos pode recuperar pulmões humanos com lesões graves.


As doenças respiratórias são a terceira causa de morte no mundo. Para milhares de pessoas, só existe uma maneira de escapar com vida dos estágios finais de certas enfermidades do pulmão: fazer um transplante. Mas sobram candidatos, e faltam pulmões.


Para complicar, pulmões de muitos doadores em potencial são rejeitados porque têm ferimentos ou lesões.


Uma maneira de melhorar o aproveitamento desses pulmões imperfeitos é recuperar os órgãos através de perfusão pulmonar ex-vivo (EVLP, na sigla em inglês).


De que se trata? Coloca-se o pulmão num ambiente estéril na temperatura do corpo humano e ali o órgão recebe oxigênio e nutrientes através da circulação de um líquido, sem envolver sangue.


Com a EVLP, o pulmão se mantém estável e se recupera um pouco, mas não muito porque esse processo é limitado - não passa de 6 a 8 horas.


Os cientistas da Colúmbia e da Vanderbilt, usando uma plataforma diferente, conseguiram que o período de recuperação dos pulmões chegasse a 24 horas, graças à circulação cruzada de sangue com porcos da raça Yorkshire.


Trabalhando com 6 órgãos que não tinham se regenerado numa tentativa prévia por EVLP, eles chegaram a resultados extraordinários.


Pulmão arruinado e recuperado com a técnica | Fotos: Ahmed Hozain e John O'Neil/Colúmbia

A regeneração dos pulmões obtida é o resultado de oito anos de trabalho. Em 2017, os cientistas criaram uma plataforma de circulação xenogênica ( entre espécies diferentes) e mostraram ser viável usar a circulação cruzada para manter pulmões inteiros fora do corpo.


No ano passado, regeneraram pulmões de porcos seriamente danificados com circulação cruzada. Este ano, ampliaram a manutenção dos pulmões fora do corpo por 4 dias.


O que eles fizeram agora foi recuperar pulmões humanos já rejeitados para transplantes durante um processo de 24 horas. O estudo foi publicado no jornal Nature Medicine.


No experimento, 5 porcos passaram por um processo de imunossupressão, para que seu sistema imunológico não atacasse os pulmões humanos. O sexto porco, para controle, continuou com seu sistema imunológico normal.


Os pulmões foram então anexados aos seis porcos e submetidos a circulação cruzada por 1 dia. O pulmão ligado ao porco de controle logo entrou em parafuso. Todos os outros melhoraram substancialmente.


Infelizmente, há um longo caminho a percorrer até que a técnica possa ser aplicada a pulmões para transplantes em humanos na prática.


Se ela for aplicada repetindo o experimento atual, com porcos, é preciso assegurar que os animais não transmitam doenças aos transplantados através dos pulmões que hospedaram.


Os próprios pesquisadores apontam outra possibilidade, que se beneficia de seu experimento mas não repete o que eles fizeram. Pacientes gravemente doentes à espera de um pulmão poderiam servir eles próprios como hosts dos pulmões em recuperação.


Mas isso já é tema para uma nova pesquisa.


Veja mais: Misturar humanos e porcos em embriões? Não é impossível


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