• Sandra Carvalho

QAnon, a maior usina de ideias malucas do momento

A teoria de conspiração do movimento QAnon transborda dos EUA para o resto do mundo.


Adesivo do QAnon nos EUA: propaganda para reeleger Trump | Foto: cc 4.0 XPlayer2x/Wikimedia Commons

A teoria da conspiração QAnon nasceu três anos atrás nos porões da internet, nos Estados Unidos, ganhou músculo nas franjas da ultradireita americana com teses delirantes e agora contagia outros pontos do globo, da Alemanha ao Brasil.


Suas ideias bizarras, que prometem um novo "despertar" para a humanidade, sem lady Gaga, sem Obama, sem máscaras ou lockdowns, prosperam num mundo abalado pela pandemia de Covid-19 e pela degradação momentânea de tantas democracias.


A ideia central do QAnon é simples: o mundo é dominado por uma elite mundial de pedófilos e adoradores de Satanás, com poder para controlar os políticos, a mídia e Hollywood. Só um super-herói poderia se contrapor com eficácia a tudo isso: o presidente americano, Donald Trump.


"Na narrativa do QAnon, o presidente Trump seria o salvador da humanidade" comenta o jornalista Travis View, do Washington Post, um dos maiores estudiosos do movimento. "Eles acreditam literalmente que se o presidente Trump não fosse eleito seria o fim dos Estados Unidos e do mundo."


A teoria master da conspiração é essa, mas centenas de outras prosperam no movimento. Uma das mais repetidas é a tese de que John Kennedy Jr, filho do ex-presidente democrata John Kennedy, morto em acidente de avião em 1999, está vivo, incógnito, e apoia Trump.


DNA lunático


O QAnon começou em 2017 com posts do usuário Q no fórum 4Chan, onde todos são anônimos, com exceção dos administradores. A letra Q é uma referência ao nível mais alto de permissões de segurança do governo americano.


As mensagens já revelavam o DNA lunático da coisa: giravam em torno do sequestro de crianças por uma elite globalista para extrair delas uma substância de prolongamento da vida.


O QAnon encontrou um terreno fértil nos protestos contra medidas sanitárias de combate ao novo coronavírus. Muitos novos adeptos são recrutados aí - a revolta contra as restrições da pandemia se amplia para uma coleção de hipóteses amalucadas de conspiração.


Hoje os adeptos do QAnon estão à espera de uma "tempestade" em que os seus inimigos serão fulminados e que será seguida do " grande despertar", que desmantelará o "estado profundo das elites", hoje incontrolável.


Os inimigos vão do papa Francisco ao bilionário George Soros, do ator Tom Hanks à política Hillary Clinton, do youtuber Felipe Neto ao empresário e filantropo Bill Gates.


"Tempestade" e "grande despertar" são motes recorrentes do QAnon. A sigla WWG1WG também. É a abreviatura de "Where we go one, we go all".


Nos Estados Unidos, o QAnon se mobiliza para a reeleição de Trump, o salvador. A simpatia é recíproca, a despeito de o FBI ter enxergado no movimento uma ameaça terrorista.


Trump descreveu os membros do movimento como "pessoas que amam seu país", como relatou a BBC. Mais: chamou a militante do QAnon Marjorie Taylor Green, da Geórgia, que concorre ao Congresso nas eleições de novembro, de futura estrela republicana.


No Brasil, o movimento ganhou eco na extrema direita com impulso de ativistas bolsonaristas.


Um levantamento do Estadão indicou que as ideias do QAnon foram disseminadas nos últimos 12 meses em grupos e canais do YouTube e Facebook que no conjunto têm 1,7 milhão de adeptos. Entre eles, estão "Aliança com o Brasil" e "Brasil Acima de Tudo".


Golpe do Facebook


Um exemplo de bolsonarista do QAnon é o tuiteiro Dom Esdras, o Dom das Threads, com 77 mil seguidores, que investe simultaneamente contra militantes negros americanos, comunistas, o ex-ministro Moro, chineses, argentinos, a elite, povos indígenas...


O QAnon tupiniquim vinha crescendo no Facebook, mas a rede tirou ar grupos e páginas do movimento que desinformavam sobre Covid-19 e bombardeavam opositores do presidente Bolsonaro.


Na Alemanha, o QAnon ganhou notoriedade ao interpretar exercícios da NATO como uma manobra disfarçada de Trump para derrubar a primeira-ministra Angela Merkel do governo.


Foi impulsionado por uma organização de extrema direita ainda inconformada com a vitória dos aliados sobre o terceiro Reich de Hitler e à espera da invasão da Alemanha por Trump para liberar o país, a Reichsbürger.


Um dos porta-vozes mais conhecidos do movimento é um chef-celebridade vegano, Attila Hidmann, que chama Merkel de judia sionista e despreza a democracia pós-guerra do país.


Segundo o New York Times, o QAnon alemão já tem 200 mil seguidores nas plataformas online, do YouTube ao Telegram.


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