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Quando nos tornamos inteiramente humanos?

Texto de Nick Longrich, professor de Biologia Evolutiva e Paleontologia da Universidade de Bath.


Foto: cc Mariano Cecowski/Wikimedia Commons

Quando alguém parecido conosco apareceu pela primeira vez no planeta? Há muito pouca concordância sobre essa questão. Fósseis e DNA sugerem que pessoas semelhantes a nós, o Homo sapiens anatomicamente moderno, evoluíram há cerca de 300.000 anos.


Surpreendentemente, a arqueologia - ferramentas, artefatos, arte rupestre - sugere que tecnologias e culturas complexas da “modernidade comportamental” evoluíram mais recentemente: 50.000-65.000 anos atrás.


Alguns cientistas interpretam isso como uma sugestão de que os primeiros Homo sapiens não eram inteiramente modernos.


No entanto, os dados diferentes rastreiam coisas diferentes. Crânios e genes nos falam sobre cérebros, artefatos sobre cultura. Nossos cérebros provavelmente se tornaram modernos antes de nossas culturas.


O “grande salto”


Por 200.000-300.000 anos após o Homo sapiens aparecer pela primeira vez, ferramentas e artefatos permaneceram surpreendentemente simples, pouco melhores do que a tecnologia Neandertal, e mais simples do que os de caçadores-coletores modernos, como certos indígenas americanos.


Começando cerca de 65.000 a 50.000 anos atrás, uma tecnologia mais avançada começou a aparecer: armas de projétil complexas como arcos e lançadores de lanças , anzóis , cerâmicas, agulhas de costura.


Pessoas fizeram arte figurativa - pinturas em cavernas de cavalos, deusas de marfim, esculturas de homens com cabeça de leão, mostrando talento artístico e imaginação. Uma flauta de osso de pássaro sugere música. Enquanto isso, a chegada de humanos à Austrália 65.000 anos atrás mostra que dominamos a navegação marítima.


Esse repentino florescimento da tecnologia é chamado de “grande salto à frente”, supostamente refletindo a evolução de um cérebro humano totalmente moderno. Mas os fósseis e o DNA sugerem que a inteligência humana se tornou moderna muito antes.


Modernidade anatômica


Os ossos do Homo sapiens primitivo apareceram pela primeira vez 300.000 anos atrás na África, com cérebros tão grandes ou maiores que os nossos. Eles foram seguidos pelo Homo sapiens anatomicamente moderno há pelo menos 200.000 anos, e a forma do cérebro tornou-se essencialmente moderna pelo menos 100.000 anos.


A essa altura, os humanos tinham caixas cranianas semelhantes em tamanho e forma às nossas.


Supondo que o cérebro fosse tão moderno quanto a caixa que o continha, nossos ancestrais africanos teoricamente poderiam ter descoberto a relatividade, construído telescópios espaciais, escrito romances e canções de amor. Seus ossos dizem que eles eram tão humanos quanto nós.


Como o registro fóssil é muito irregular, os fósseis fornecem apenas datas mínimas. O DNA humano sugere origens ainda mais antigas para a modernidade.


Comparando as diferenças genéticas entre o DNA das pessoas modernas e dos africanos antigos, estima-se que nossos ancestrais viveram entre 260.000 a 350.000 anos atrás.


Todos os humanos vivos descendem dessas pessoas, o que sugere que herdamos deles os pontos comuns fundamentais de nossa espécie, nossa humanidade.


Todos os seus descendentes - bantu, berber, asteca, aborígene, tamil, san, han, maori, inuit, irlandês - compartilham certos comportamentos peculiares ausentes em outros grandes macacos.


Comportamento inato


Todas as culturas humanas formam laços de longo prazo entre homens e mulheres, em pares, para cuidar dos filhos. Nós cantamos e dançamos. Fazemos arte. Alisamos nossos cabelos, adornamos nossos corpos com enfeites, tatuagens e maquiagem.


Construímos abrigos. Utilizamos o fogo e ferramentas complexas. Formamos grandes grupos sociais multigeracionais com dezenas a milhares de pessoas. Cooperamos para travar a guerra e ajudar uns aos outros.


Ensinamos, contamos histórias, negociamos. Temos moral, leis. Contemplamos as estrelas, nosso lugar no cosmos, o sentido da vida, o que segue a morte.


Os detalhes de nossas ferramentas, estilos, famílias, moral e mitologias variam de tribo para tribo e cultura para cultura, mas todos os humanos vivos mostram esses comportamentos.


Isso sugere que esses comportamentos - ou, pelo menos, a capacidade para eles - são inatos. Esses comportamentos compartilhados unem todas as pessoas. Eles são a condição humana, o que significa ser humano, e resultam de ancestrais compartilhados.


Herdamos nossa humanidade dos povos do sul da África há 300.000 anos. A alternativa - que todos, em todos os lugares, coincidentemente se tornaram totalmente humanos da mesma maneira ao mesmo tempo, começando 65.000 anos atrás - não é impossível, mas uma única origem é mais provável.


O efeito de rede


A arqueologia e a biologia podem parecer discordar, mas na verdade contam diferentes partes da história humana. Ossos e DNA nos falam sobre a evolução do cérebro, nosso hardware. As ferramentas refletem a capacidade intelectual, mas também a cultura, nosso hardware e software.


Assim como você pode atualizar o sistema operacional do seu computador antigo, a cultura pode evoluir mesmo que a inteligência não.


Os seres humanos nos tempos antigos não contavam com smartphones ou voos espaciais, mas sabemos, por estudar filósofos como Buda e Aristóteles, que eles eram igualmente inteligentes. Nossos cérebros não mudaram, nossa cultura sim.


Isso cria um quebra-cabeça. Se os caçadores-coletores do Pleistoceno eram tão espertos quanto nós, por que a cultura permaneceu tão primitiva por tanto tempo?


Por que precisamos de centenas de milênios para inventar arcos, agulhas de costura, barcos? E o que mudou? Provavelmente várias coisas.


Primeiro, empreendemos uma jornada para fora da África, ocupando uma parte maior do planeta. Depois os humanos aumentaram em número, fazendo crescer as chances de um Steve Jobs pré-histórico ou Leonardo da Vinci.


Também enfrentamos novos ambientes no Oriente Médio, Ártico, Índia, Indonésia, com climas, alimentos e perigos únicos, incluindo outras espécies humanas. A sobrevivência exigia inovação.


Clima mais ameno


Muitas dessas novas terras eram muito mais habitáveis ​​do que o Kalahari ou o Congo. Os climas eram mais amenos, mas não foi só isso.


O Homo sapiens também deixou para trás doenças e parasitas africanos. Isso permitiu que as tribos se tornassem maiores, e tribos maiores significavam mais cabeças para inovar e se lembrar de ideias, mais mão de obra e melhor habilidade para se especializar. A população impulsionou a inovação.


Isso disparou ciclos que se realimentavam. À medida que novas tecnologias apareceram e se espalharam - melhores armas, roupas, abrigos - o número de humanos pôde aumentar ainda mais, acelerando a evolução cultural novamente.


Os números impulsionaram a cultura, a cultura aumentou os números, acelerando a evolução cultural, continuamente, levando as populações humanas a ultrapassar seus ecossistemas, devastando a megafauna e forçando a evolução da agricultura.


Finalmente, a agricultura causou um aumento explosivo da população, culminando em civilizações de milhões de pessoas. Foi então que a evolução cultural entrou em hiperatividade.


Os artefatos refletem a cultura e a complexidade cultural é uma propriedade emergente. Ou seja, não é apenas a inteligência de nível individual que torna as culturas sofisticadas, mas as interações entre indivíduos em grupos e entre grupos.


Como se coloca em rede de milhões de processadores para fazer um supercomputador, aumentamos a complexidade cultural aumentando o número de pessoas e as ligações entre elas.


Portanto, nossas sociedades e o mundo evoluíram rapidamente nos últimos 300.000 anos, enquanto nossos cérebros evoluíram lentamente.


Expandimos nossos números para quase 8 bilhões, espalhados por todo o globo, remodelamos o planeta. Não o fizemos adaptando nossos cérebros, mas mudando nossas culturas.


E grande parte da diferença entre nossas sociedades antigas e simples de caçadores-coletores e as sociedades modernas apenas reflete o fato de que há muito mais de nós e mais conexões entre nós.


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