• Sandra Carvalho

Ressaca, tão inevitável quanto a morte e os impostos

Cerveja, vinho, vodca - não importa. Os efeitos do álcool são os mesmos.


Ressaca: efeitos no corpo e na mente | Foto: cc0 Erik McLean/Unsplash

Beber é uma festa para o cérebro: libera as endorfinas, seus opioides naturais. E também libera dopamina, o neurotransmissor do seu sistema de recompensas, conhecido como neutrotransmissor do prazer.


Mas nem tudo é alegria para quem entorna copos demais. Bebedeira chama ressaca. O day after não é brincadeira.


Gosto amargo na boca, náusea, vômitos, tontura, letargia, a cabeça latejando - o corpo pena.


A mente também: a ansiedade é uma marca das ressacas. Existe até um termo em inglês para isso: hangxiety (a junção de hangover, ressaca, mais anxiety, ansiedade).


A Ciência explica a hangxiety: se deve ao bloqueio do GABA, o ácido gama-aminobutírico, que produz uma sensação de calma e relaxamento no cérebro e diminui a ansiedade.


Durante uma bebedeira, o álcool estimula muito a produção de GABA. A alegria toma conta nos dois primeiros drinques. No terceiro ou quarto, o álcool passa a bloquear o neurotransmissor glutamato, associado à ansiedade.


Em resposta, em busca de equilíbrio, o corpo passa a produzir mais glutamato, que acaba bloqueando o GABA na ressaca. Resultado: ansiedade.


Segundo David Nutt, professor de neuropsicofarmacologia do Imperial College de Londres (UCL), pode demorar um ou dois dias para o cérebro voltar ao normal depois de uma bebedeira.


O que aconteceu?


Outro efeito comum na ressaca, a dificuldade de lembrar o que aconteceu na noite anterior, é fácil de explicar. Acontece com quem consumiu grandes quantidades de álcool.


Cerveja, vodca, vinho, prosecco, cachaça - o tipo de bebida não tem importância, porque o que conta mesmo é a quantidade de álcool entornada.


Quanto mais álcool bebido, mais chances de se esquecer o que se passou durante uma bebedeira. Mandar ver numa dose atrás da outra, muito rapidamente, também aumenta a possibilidade de um blackout.


A razão: depois que o álcool atinge determinado nível no sangue, o cérebro para de formar novas memórias.


A descrição do processo de blackout é de Nicole Lee, especialista em drogas da universidade australiana Curtin, e de Brigid Clancy, pesquisadora da Universidade de Newcastle, também da Austrália, num artigo do site Conversation que dissecou a ressaca do começo ao fim.


Estômago vazio ou cheio importa: em jejum o corpo absorve o álcool muito mais rápido. Seja como for, álcool demais irrita o estômago, o que pode causar os vômitos tão comuns na ressaca, e até diarreia.


Como o álcool é diurético, ele também pode desidratar o corpo, o que ajuda a explicar as tonturas, a letargia e a sonolência das ressacas.


Pileques criam um desequilíbrio de eletrólitos, minerais essenciais para o bom funcionamento do corpo - daí a origem das náuseas e da falta de energia.


E as dores de cabeça? Muito álcool expande os vasos sanguíneos, e aí vem a dor, reforçada pela desidratação e pelo desequilíbrio de eletrólitos.


Mais: o álcool acaba com a qualidade do sono, diminuindo especialmente a fase REM, quando os sonhos acontecem. Essa fase é muito importante para a memória de longo prazo.


Prejudicada, a fase REM pode ter o efeito de tornar a memória mais fragmentada, segundo a pesquisadora Amy Reichelt, da Escola de Medicina Schulich, da universidade canadense Western (UWO).


Enfim, a alegria dura pouco. Para amenizar os efeitos da ressaca, é preciso ter disciplina ao beber: comer antes dos drinques, espaçar as doses, alternando com copos de água, e diminuir a quantidade de álcool consumida.


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