• Sandra Carvalho

Tá saindo um filé de Wagyu do laboratório?

A carne de laboratório dá um salto com a última invenção de cientistas de Osaka.


Carne wagyu temperada de vacas de carne e osso: o modelo para carne de laboratório | Foto: cc Alpha/Flickr

A carne de laboratório, criada com células de animais, longe dos pastos e dos matadouros, está cada vez mais próxima dos nossos pratos.


Um passo adiante acaba de ser dado por cientistas da Universidade de Osaka (#Handai), no Japão, que bioimprimiram em 3D uma carne com estrutura semelhante à carne Wagyu, a mais cara do mundo, com os músculos, gordura e vasos sanguíneos dos filés convencionais.


A carne Wagyu, bem marmorizada, tem uma textura muito própria, e sabor considerado inigualável por carnívoros gourmet. Uma embalagem pequena, de 240 gramas, custa atualmente perto de 400 reais em açougues online brasileiros.


Os cientistas partiram de dois tipos de células-tronco das vacas Wagyu, as células-satélites dos músculos dos animais, e as células-tronco de gordura. Incubaram as células e a partir delas cultivaram a carne, fazendo a bioimpressão em 3D.


Com essa tecnologia, eles conseguiram inclusive calibrar a maior ou menor presença de músculo e gordura, abrindo caminho para uma carne personalizável no futuro. Consumidores mais interessados em sabor favoreceriam mais gordura e aqueles mais ligados em saúde fariam o contrário.


Os pesquisadores chegaram a pedaços de carne de 5 milímetros por 10, ainda longe do tamanho dos filés reais da carne Wagyu. Por enquanto, não atingiram um estágio que já permita comercializar sua invenção.


O estudo foi publicado na Nature Communications. Veja o esquema da carne de Osaka nesse infográfico:


Infográfico de carne de laboratório
Infográfico: Universidade de Osaka

O projeto da Universidade de Osaka é a segunda tentativa conhecida de chegar aos filés de carne Wagyu em laboratório. A startup americana Orbillion Bio, de #Berkeley, Califórnia, vem desenvolvendo esse tipo de carne nos últimos anos.


A Orbillion trabalha com uma série de pequenos biorreatores e emprega aprendizado de máquina para otimizar as opções de carne.


"A chave para fazer carne de laboratório funcionar de forma escalável é escolher as células cultivadas certas da maneira mais eficiente possível", comentou Holly Jacobus, um dos investidores na Orbillion, ao Tech Crunch.


A opção por carne Wagyu não é por acaso. Por enquanto, o processo de produzir carne em laboratório é muito caro, e fica difícil competir em preço com substitutos de carnes comuns de animais como frango, porco e vaca.


Os trunfos da carne de laboratório são éticos e ambientais. Em primeiro lugar, ela dispensa a crueldade com animais, e o ato final degradante de sua morte nos matadouros.


Em segundo lugar, a carne de laboratório evita os enormes estragos causados ao meio ambiente pela criação do gado nos pastos, com sua carga de gases de efeito estufa, principalmente #metano, despejada na atmosfera.


No Japão a criação de carne de laboratório tem ganhado cada vez mais atenção. Na Universidade de Tóquio (#Todai), os cientistas estão desenvolvendo tecido muscular bovino para fugir da carne moída sintética e produzir uma textura semelhante a pedaços de carne, como em Osaka.


Eles usam técnicas de medicina regenerativa para criar pedaços de carne de alguns milímetros em módulos de hidrogel, e acreditam que do ponto de vista funcional e morfológico eles passam por substitutos do filé de carne.


Seu estudo foi publicado no periódico Science of Food.


"Nosso método abre caminho para o desenvolvimento de porções maiores de carne cultivada realista que podem complementar ou substituir fontes animais", disse Shoji Takeuchi, um dos autores do estudo num comunicado da Todai.


Mas ele alerta que nem tudo está dominado. "Há um longo caminho a percorrer antes que a carne cultivada em laboratório seja indistinguível da carne real e os obstáculos relativos à aceitação do consumidor e sensibilidades culturais sejam superados."


Carne de laboratório
Carne de laboratório com tecido muscular aprimorado, da Universidade de Tóquio | Foto: Universidade de Tóquio

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