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Teste rápido de hanseníase pode mudar um jogo cruel

O exame, criado por cientistas da UFPR e UFSCar, dá resultado em 40 minutos.


Mycobacterium leprae
Mycobacterium leprae (pequenos bastões vermelhos) | Imagem: cc0 CDCs/Public Health Image Library

Um teste sorológico desenvolvido por pesquisadores das universidades federais do Paraná (#UFPR) e de São Carlos (#UFSCar) pode contribuir para o controle da hanseníase.


De acordo com a Organização Mundial da Saúde (#OMS), 3 a 4 milhões de pessoas sofrem de incapacidades permanentes ligadas a essa enfermidade infecciosa que atinge pele, nervos e músculos, provocando lesões, perda de sensibilidade e enfraquecimento progressivos, caso não seja diagnosticada precocemente e tratada.

O exame, que gerou um pedido de patente feito pelos docentes Juliana Ferreira de Moura, do Departamento de Patologia Básica da UFPR, e Ronaldo Censi Faria, do Departamento de Química da UFSCar, é portátil, sensível e mostra o resultado em 40 minutos.


Além disso, é pouco invasivo na detecção da doença. As doutorandas Cristiane Zocatelli Ribeiro, da UFPR, e Sthéfane Valle de Almeida, da UFSCar, também constam como autoras no registro do invento.

O teste é inédito, conforme relatado por seus inventores, e consiste em utilizar um fragmento de proteína (peptídeo) específico do bacilo causador da #hanseníase, Mycobacterium leprae, para detectar anticorpos presentes em amostras de sangue – quanto mais anticorpos, mais bacilos no organismo.


O peptídeo é produzido sinteticamente, pois o bacilo M. leprae não é cultivável em meios convencionais, como a maioria das bactérias, e conjugado quimicamente a uma partícula com propriedades magnéticas.


Assim, é possível, com o uso de um ímã, concentrar e isolar os anticorpos. “Na análise da amostra de sangue, conseguimos descartar o soro e demais compostos interferentes, separando apenas o que é relevante para a detecção de anticorpos que combatem a hanseníase”, descreve Faria.


Atualmente, o diagnóstico de hanseníase é feito principalmente de forma clínica, ou seja, a partir de sinais observados pelo médico ao examinar o paciente ou ao avaliar as queixas e sintomas relatados, que podem se manifestar após anos de presença do bacilo no corpo do infectado.


“Há exames complementares ao diagnóstico clínico, como a baciloscopia de raspado dérmico e a biópsia, em que se extrai amostras da pele do paciente para observação laboratorial a fim de detectar bacilos e observar a estrutura cutânea. Mas eles são mais invasivos, caros e dependentes de técnicos do que o teste que desenvolvemos”, declara Moura.

Desafio global

Mencionada em relatos do Velho Testamento como uma praga contagiosa e degradante que isolava seus portadores do convívio social, a hanseníase é considerada uma doença tropical negligenciada (DTN), com cerca de 200 mil novos casos anuais – 14% deles ocorrem no Brasil, que só fica atrás da Índia.


Em 2019, dos 27,8 mil novos casos registrados no país, 8,5% (2.351) foram de pacientes diagnosticados com grau 2 da doença, estágio avançado que apresenta comprometimentos irreversíveis.

O combate às DTN é parte dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Organização das Nações Unidas (ONU) para 2030).


Embora #ONU e OMS pretendam erradicar a hanseníase nos próximos 10 anos, a doença, transmitida pelas vias aéreas superiores, é considerada endêmica nas regiões Norte e Centro-Oeste brasileiras.


Doenças endêmicas são aquelas que se manifestam com regularidade em determinadas regiões, com um número esperado de casos.

Na estratégia global da OMS, intitulada “Rumo à hanseníase zero”, um aspecto central é a detecção ativa e precoce de novos casos.


“Gostaríamos de que o teste fosse levado para áreas endêmicas a fim de identificar pessoas que tenham anticorpos. Dessa forma, seria possível encaminhá-las a médicos para a confirmação do diagnóstico e monitorá-las em busca de sinais da hanseníase. Ainda não sabemos até que ponto o aparecimento de anticorpos já é sinal de desenvolvimento da doença”, explica Moura.

O mais importante, segundo a professora da UFPR, é que ao menor sinal de manifestação da infecção o tratamento medicamentoso seja aplicado.


“Para a hanseníase, o tratamento precoce é importante por dois motivos. Primeiro, porque em poucas semanas o paciente deixa de transmitir o bacilo, interrompendo a cadeia de contágio. Segundo, porque há o controle dos sintomas e a prevenção de sequelas severas, como perda de visão, força, movimentos, deformidades, entre outras”, diz Moura.


A pesquisadora pontua que, além de promover o encaminhamento de pacientes ao médico ainda em estágios iniciais da doença, o teste sorológico auxilia o especialista a definir o tratamento mais adequado.


É que, dependendo da quantidade de anticorpos detectados, é possível determinar se o paciente tem poucos bacilos no organismo (paucibacilar) ou muitos (multibacilar).


“Detectar anticorpos em paucibacilares possibilita ao médico tratar alguém que poderia estar sem diagnóstico. Além disso, ele tem informação precisa para oferecer o tratamento mais adequado, que costuma durar seis meses para paucibacilares e 12 meses para multibacilares.”


A retomada da hanseníase

Em queda desde 2006, a doença voltou a aumentar em 2016

Gráfico sobre hanseníase
Fonte: Ministério da Saúde | Gráfico: Pesquisa Fapesp

O especialista em hanseníase Marcos César Florian, do Departamento de Dermatologia da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-Unifesp), comenta que testes rápidos, como o da UFPR/UFSCar, ampliam a capacidade diagnóstica atual e contribuem para o controle de contágio e do agravamento dos sintomas ao oferecer a possibilidade de detecção precoce do bacilo.

“Aumentar o arsenal laboratorial para avaliar as pessoas em áreas endêmicas, bem como as que fazem parte do convívio de pacientes diagnosticados com hanseníase, é uma importante estratégia de saúde pública e prevenção”, afirma Florian.


“Os profissionais que atuam com a hanseníase, especialmente os que estão em áreas distantes dos centros, às vezes sem acesso a uma boa baciloscopia de raspado dérmico e a bons laboratórios de anatomia patológica, têm que se basear somente nos aspectos clínicos para realizar o diagnóstico da hanseníase. Há casos muito difíceis, pois trata-se de uma doença complexa, crônica, capciosa e com muitas variantes clínicas.”

O dermatologista informa que há outros exames aprovados recentemente pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para o diagnóstico de hanseníase, porém com metodologia diferente, baseada na extração e análise do material genético (PCR).


Um desses exames, desenvolvido pelo Instituto Carlos Chagas, unidade da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) no Paraná, e pelo Instituto de Biologia Molecular do Paraná (IBMP), é o Kit NAT Hans, que detecta o DNA do bacilo por meio de amostras de pele ou de nervo.


Outro é um teste do laboratório Mobius Life Science feito a partir de biópsia de pele. Ambos necessitam de laboratório e pessoal especializados para o processamento do material e para a realização do PCR.


“Essas tecnologias já são conhecidas. A novidade é a validação dos testes e a possibilidade de serem utilizados em campo, no dia a dia, para além do ambiente de pesquisa acadêmica, desde que tenham preços e estrutura técnica viáveis”, afirma.


Segundo o médico, é preciso também que sejam incorporados pelo Ministério da Saúde nos programas de hanseníase e estejam disponíveis para as equipes que atuam nas diversas regiões do país.

Os pesquisadores foram financiados pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e agora estão em busca de parcerias, privadas e públicas, para tornar viável o licenciamento da nova tecnologia e a produção de uma versão comercial do diagnóstico, que ainda precisará ser aprovado pela Anvisa.

Faria comenta que a metodologia de trabalho no Laboratório de Bioanalítica e Eletroquímica da UFSCar – que já desenvolveu propostas para dispositivos voltados ao diagnóstico precoce de Alzheimer, de alguns tipos de câncer (mama, cabeça e pescoço) e de Covid-19 – concilia a busca por resolver problemas, que é própria da ciência, com a viabilização dessas soluções em larga escala.


Alguns testes estão em negociação para licenciamento de patente com empresas interessadas em desenvolver um produto comercial.

“Os alunos constroem tudo: eletrodos, biocompostos, reagentes, sensores etc. O diálogo com o setor produtivo, que já dura anos, nos mostrou que é mais interessante avançar com a pesquisa em nanotecnologia empregando materiais disponíveis comercialmente. Dessa forma, conseguimos gerar protótipos com maior potencial de produção em escala”, destaca o pesquisador da UFSCar.


O próximo passo da equipe é trabalhar em uma versão de farmácia do teste de hanseníase, portátil e acessível, similar às fitas de detecção de níveis de glicose no sangue. ✔︎


Esse texto, de Tiago Jokura, foi republicado da Pesquisa Fapesp de acordo com uma licença Creative Commons. Leia o original aqui.


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