• Sandra Carvalho

Uma ilha, uma invasão de ratos e um final feliz

Os ratos foram erradicados e a vida selvagem voltou a prosperar em Hawadax.


A ilha Hawadax, ex-Ilha dos Ratos, no Alasca: nova chance | Foto: Rory Stansbury/UCSD

Algumas ilhas vulcânicas e desabitadas do Alasca estão tão dominadas por roedores que passaram a ser chamadas de Ilhas dos Ratos.


Ali os ratos-castanhos (Rattus norvegicus) dominaram a natureza, acabaram com a vida dos pássaros litorâneos e viraram sinônimo de pesadelo no meio do mar.


Mas uma dessas ilhas conseguiu escapar desse destino - a Hawadax. O estudo de sua espetacular recuperação foi publicado no jornal Scientific Reports.


A remota Hawadax, que fica num refúgio de vida selvagem do Alasca, na cadeia de Ilhas Aleutas, a 2.000 quilômetros a oeste de Anchorage, a maior cidade do estado, foi chamada de Ilha dos Ratos por muito tempo.


Os roedores chegaram ali por um acidente, com o naufrágio de um navio japonês por volta de 1780.


Durante 220 anos, os roedores transformaram os pássaros da costa em suas presas, comendo seus ovos e seus filhotes e dizimando várias espécies. Desencadearam mudanças em todos os ecossistemas locais.


Durante um bom tempo, os ratos tiveram um aliado na destruição da fauna e da flora local: as raposas-do-ártico (Vulpes lagopus), outra espécie invasora. Elas foram introduzidas por comerciantes de pele no século 19.


Os efeitos disruptivos das raposas acabaram em 1984, quando elas foram erradicadas.


Papagaio-do-mar-tufado: de volta depois do fim dos ratos | Foto: Marc Romano/USFWS

Em 2008, depois de quatro anos de planejamento, conservacionistas resolveram dar um fim nos roedores e eliminaram todos eles a fim dar nova chance à vida selvagem da ilha.


Eles usaram um raticida anticoagulante à base de Brodifacoum, com iscas de grãos jogadas de helicóptero. Esse veneno bloqueia a coagulação do sangue e provoca hemorragias fatais ao longo de vários dias.


Os ratos acabaram. Com um veneno tão tóxico, houve danos colaterais letais a outras espécies, sobretudo aves. Mas depois a mortalidade dos pássaros voltou ao normal e os ratos não reapareceram.


O projeto foi tocado pelo Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos Estados Unidos (USFWS) e as organizações The Nature Conservancy e Island Conservation.


Em 2012, depois de quatro anos livre de roedores, a Ilha dos Ratos foi rebatizada de Hawadax.


Cinco anos depois da erradicação, pássaros terrestres e litorâneos já viviam na ilha de novo, e aves marinhas recolonizavam a área.


A Hawadax virou um case, que pode servir de referência para a recuperação de outras ilhas atacadas por animais invasores.


Em ilhas, espécies invasoras como os ratos são particularmente perturbadoras, alertam os pesquisadores da UCSD.


Normalmente se tem um número pequeno de espécies, uma cadeia alimentar mais simples e pouca redundância na natureza. Os ecossistemas são mais vulneráveis.


Daí que a eliminação dos ratos em particular e dos animais invasores em geral estão se tornando comuns em ilhas. Segundo a pesquisa da UCSD, já houve mais de 900 erradicações bem sucedidas de animais invasores em 800 ilhas de 1.950 para cá.


Passaros litorâneos: livres da ameaça dos roedores | Foto: Rory Stansbury/UCSD

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